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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vinte rostos dois mil anos

Câmara sensível
Abracei o tema sem particulares expectativas ou sobressaltos. Mas, à medida em que fui avançando, percebi que estes eram retratos impregnados de um toque sensitivo muito particular. E, mesmo agora, olhando as imagens impressas em papel, não consigo de todo descortinar a razão deste trabalho se ter tornado tão inquietante e impressivo. Tão pessoal.
É certo que, face à objectiva, se perfilaram homens, mulheres, gente em relação a quem é difícil ser frio. A idade enternece. Mas retratar, acto de afecto, é sempre sentir o outro lado. É viagem além da pela para, brandamente, surpreender a luz interior. Improvável predação talvez, mas que dá ao mister a aura conveniente.
Fotografei no meu jeito habitual. Depois as imagens, estas imagens, perduraram mais do que seria razoável. Ficaram, por estranho mecanismo, impressas no íntimo. Como se eu me abrisse a um raio imperceptível. A um fluxo material que, fundo, atingisse o pensamento. E aí se abrigasse.
Fecho os olhos e revejo todos os retratados. Com nitidez. Como quem mergulha num álbum. Decifro-lhes as feições, percorro-lhes as rugas. Enxergo o luto que lhes veste o corpo, pesado. Sinto-lhes a exaltação da primeira hora. Talvez contagiados pela satisfação da família por, finalmente, alguém da casa ter honras de posteridade.
Neste misterioso flashback, revivo tudo como de facto aconteceu. Recrio sem esforço o frente a frente. Eu, contenção de gestos, de palavras, a calcular o espaço, o enquadramento, a medir a luz. A pensar e a agir rápido. Eles conformados, quietos. Tão assim que até parece nunca terem saído do lugar em que estão, a vida toda ancorada ali. À espera. E, entretanto, alguns encharcaram-se de medos nas trincheiras da guerra. Outros vagamundearam por mares de calema, dias bravos. Só tarde regressaram. Cansados.
Alheios ao desassossego que reina em volta, pose solene ou a fazerem-se desentendidos, olham-me, indulgentes. Vagos. Como se vissem para além de mim. Como se eu, tudo à volta, fosse transparência. Espaço aberto, horizonte.
Vejo-lhes o rosto. Mãos de vidro pousadas no colo. Frágeis. Tão frágeis. Os olhos a sumirem-se nas órbitas. E a brilharem, no fundo, nem alegres nem tristes. Resignados. E com uma tal inocência que o passar dos anos dir-se-ia lhes haver restituído a candura original. Para sempre.
Por detrás da câmara, pela última vez, analiso-os de alto a baixo. Um a um. Atento aos pormenores, ao detalhe derradeiro.
Avalio-lhes a postura. Fixo-lhes a expressão. Eles imóveis - um sério fingimento de eternidade.
Sinto que vou fotografar a ausência. Um outro tempo. E comovo-me, clic!




Fotografia e texto: Augusto Baptista, in 20rostos2000anos.canalblog.com/

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