Inquietação
A
pergunta irrompeu inesperada, madrugada alta. Embrenhado na leitura, eu não
dera pela entrada da voz inquiridora.
Aturdido,
fechei o livro, ensaiei fuga à questão. Afinal era tarde, horas de dormir, a
televisão há muito mandara os meninos para a cama.
O
ânimo perguntador não esmoreceu. Tentei ganhar tempo, trataríamos do caso pela
manhã, com calma, de ta lha da men te.
Desconsegui.
De
novo a pergunta, a inquietar a noite:
–
Papá, o que é pensar?
E
dei por mim a titubear. A enrolar-me em explicações. A tactear resposta que
fizesse sentido. Para mim, para a minha pequena filha, então com quatro, cinco
anos.
Pensar
é um mundo. É resolver (ou não) um problema. De alta ou de básica matemática:
dois mais dois? É uma palavra, uma poética. Um passeio de mãos dadas à beira
mar, entre bandos de estorninhos. É perguntar: “Gostas de mim?” E ter resposta.
Às vezes não.
É
uma espécie de coceira no cocuruto, silêncio que nos revira para dentro, nos
intriga, nos põe cismáticos, como se não houvesse lá fora, nem amanhã. E ao
mesmo tempo é uma coisa natural. Como dizer, sentir, ouvir, sorrir, brincar. Ou
respirar.
É
existir, é obstinação, deriva. É equacionar o sentido da vida, individual, de
todos. Um reflectir em relação, nós e os outros, nós e o universo. Para
conhecer, para transformar.
Pensar é
pesadelo. Lágrima. Gargalhada. É uma ideia que nos ata, uma arma florida, cravo
com que se assalta o céu. É revolução. Sonho. Só sonhando
se alcança a quimera para todos: igualdade, fraternidade, o pão, a paz.
É uma viagem
de incessantes tentativas, um cair e levantar, um cair e levantar. E insistir.
Um ensaio de saídas em labirintos, que se abrem em outros labirintos, em novos
e infinitos labirintos. Com dissimulados alçapões.
É erguer os
olhos, sondar o espaço, partir. Embarcar na construção de um mundo justo. Acreditar.
Mesmo quando o horizonte é denso e o futuro arrepia.
Pensar é a
busca da certeza tangível a cada hora. Uma incerteza, um sei lá. Saudação,
liberdade. É ter ideias, morrer por elas: “Não falo!” É ânsia de verdade, de saber,
conhecimento, cultura. Combate à vilania, à insânia. Um culto à elevação, à
beleza, à bondade. À razão. É um pulsar. Um tem de ser. É a busca da figura
geométrica essencial para modelar a harmonia, repor o equilíbrio natural. É
cabelo desgrenhado sobre a fronte, um desatino.
Pensar é concluir
que só lá vamos com os outros. Sozinhos não tem piada, não enche o peito, não
ilumina o coração. Nem a razão. É movimento, levitação, caos para
gerar novos portos de chegada, descobrir outras partidas.
Um
tilintar. Uma viagem, um voo cósmico. Sinfonia de campainhas e chocalhos,
rebanho de ideias em transumância.
Campo lavrado,
mão, pensar é punho, torno, cinzel, arado, barco, desenho, jornal. É livro,
pauta de música, orquestra, canção. E ruas, cidades, festa, balão.
Pensar é um
valor de sempre. Como Abril. Como estes anos a insistir. Este labor, este
lutar. É uma gaivota sobre os céus do Porto, sobre os céus do mundo, rés ao
passado, em voo livre rumo ao futuro?
Ajudem-me
nesta inquietação:
– O que é
pensar?
Augusto
Baptista