quinta-feira, 27 de agosto de 2026
terça-feira, 25 de agosto de 2026
NA SENDA DOS LIVROS
De repente ele aportou num jardim redondo inundado de livros. E gente. E patos, perus, galinhas pedreses, galos de crista vermelha, pavões, garnizés.
Entre stands, estantes, balcões, escaparates, arvoredo, largas avenidas: gente de olho nos livros. No frenesim literário, na corrente de pernas, sapatos, uma velha pavoa, o filhote atrás. Pequenino, a bem dizer pintainho. E já tão ávido de histórias, de palavras, de letras. Tão na senda dos livros.
Augusto Baptista
sábado, 22 de agosto de 2026
O AMANHÃ
Alguém muito à frente do seu tempo! Quando o mundo, à flor da pele, navegava na onda figurativa, ele abria-se ao cromatismo.
Após ensaios exploratórios de cores inesperadas, desde o laranja-dióspiro ao verde dos milheirais, rendeu-se ao azul. Experimentou-se todo azul do pescoço para baixo; dissonante, a cabeça, de um vermelho-tomate muito intenso, uniforme, dando o conjunto a magna impressão de um crepúsculo marítimo. O anúncio de uma longa noite.
Augusto Baptista
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
AMÉLIA!
Inesperado, no intenso entrecruzar de transeuntes na cidade, aborda-a pela lateral, grita: – Amélia!
Num ímpeto, o enlace, o demorado beijo na boca. Como nos filmes!
Na confusão, a custo ela consegue reagir. Em choque: – Parvo! Energúm...
Ele, vivamente consternado: – Mil perdões, minha senhora! Queira desculpar! Confundi-a com a Amélia, a minha namorada. Como me penalizo pela minha crónica miopia!
E logo se pisga, exultante com a contabilidade do dia: três Amélias de manhã; outras tantas pela tarde!
Augusto Baptista
terça-feira, 18 de agosto de 2026
CORPO SANTO
Tatuou-se com motivos bíblicos, Cristos crucificados, Santo Antónios, Nossas Senhoras, cenas da Via Sacra. Quando à noite se recolhia no recato do quarto matrimonial, despidas as vestes profanas, ela era uma exaltação de arte sacra.
Nessa hora de divina revelação, rendido, o marido caía de joelhos em oração, até às tantas. Quando acordava do transe bento, já a senhora dormia há horas que, na missa das 7, tinha de ir para o altar-mor.
Augusto Baptista
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
CLARICE!
Pela manhã, maquinal, pôs os óculos, abriu o jornal. Como de costume fez-se aos títulos, às fotos, aos anúncios. Raios! Mil raios! Nem títulos! Nem fotos! Nem anúncios! Nem jornal! Nem as mãos divisava! Raios! Mil raios! Cego! Estou cego!, gritou. Em pânico, chamou a mulher: Clarice! CLARICE! Só então deu fé do engano: estava com os óculos de ver eclipses!
Augusto Baptista
FAROESTE
– Com que então de camisa aberta a dar o peito às balas?! Temeridade ou insensatez? Uma dúvida que vais ter toda a eternidade para esclarecer!
Tchoc!
– Hás-de aprender, palerma, a escrutinar a qualidade das munições! Não é pistoleiro quem quer, é quem merece!
Poc!
– Só me saem duques! Lá terá de ser o narrador a rematar a história!
Tau! Tau!
Augusto Baptista
