SUBVERSÃO
Entra no metro, todo o mundo enterrado no telemóvel, diz:
– Bom dia!
Augusto Baptista
MÚSICA NA BERRA!
O grupo nasceu, agregando aos poucos talentosos músicos.
A um exímio tocador de ferrinhos juntou-se um tipo vibrante a tocar pandeireta, mais tarde um puto reguila que tocava campainhas nas portas do bairro, logo tocava a fugir. Ao trio aderiu um rapazola muito conhecido na zona por tocar com os pés, mais tarde uma jovem que tocava corneta estupidamente.
Veio uma velha frenética a tocar castanholas, depois um fulano que não dava uma para a caixa, outro vibrátil no bombo, outro ainda passado da mona a tocar o sino da igreja.
O grupo empreendeu renomados concertos e, com o tempo, o apoio das redes e clubes de fãs, ganha projecção planetária. Muito por força do chefe da banda, habituado a tocar a vida para a frente, e da manager, hábil a tocar corações.
O vocalista, um desafinado, afinadíssimo em canções do bandido, ao desafio com putos aos berros, ânsia de papas de aveia!
Augusto Baptista
O PREDADOR
Saiu pela tardinha, saco a tiracolo. Pelo aspecto, ninguém o imaginaria um caçador de metáforas.
De atalaia numa esquina, não tarda surte um fulano gordo, muito gordo, um verdadeiro chouriço. Logo lança mão à metáfora, saco com ela!
À saída do metro, passando, repara numa tipa esgrouviada, pele e osso. Um espeto! Lança mão à metáfora, saco com ela!
À frente, quando nada fazia prever, salta uma jovem do shopping, muito produzida, muito decotada, muito ondulada: uma brasa! Com cuidado, saco com ela!
Corre para casa tratar da janta: chouriço assado no espeto!
Augusto Baptista
A INTERROGAÇÃO
Irrompendo do mundo dos sonhos, esbelta, cabelos ao vento, corpo nu, a jovem a correr na planície é a imaculada miragem de uma ave em harmonioso voo rumo ao infinito.
O caçador, pouco dado a contemplações transcendentais, leva a arma à cara, dedo ao gatilho.
O tempo suspenso!
Longe, mão na mão, o menino pergunta: – Deus existe, mamã?
Augusto Baptista