VISTAS LARGAS
– De patins?
– Por prudência, meu amigo! Por prudência!
– Num passeio esburacado, de patins, por prudência?!
– Em caso de azar, ponho-me no hospital num instante!
Augusto Baptista
O PREDADOR
Saiu pela tardinha, saco a tiracolo. Pelo aspecto, ninguém o imaginaria um caçador de metáforas.
De atalaia numa esquina, não tarda surte um fulano gordo, muito gordo, um verdadeiro chouriço. Logo lança mão à metáfora, saco com ela!
À saída do metro, passando, repara numa tipa esgrouviada, pele e osso. Um espeto! Lança mão à metáfora, saco com ela!
À frente, quando nada fazia prever, salta uma jovem do shopping, muito produzida, muito decotada, muito ondulada: uma brasa! Com cuidado, saco com ela!
Corre para casa tratar da janta: chouriço assado no espeto!
Augusto Baptista
A INTERROGAÇÃO
Irrompendo do mundo dos sonhos, esbelta, cabelos ao vento, corpo nu, a jovem a correr na planície é a imaculada miragem de uma ave em harmonioso voo rumo ao infinito.
O caçador, pouco dado a contemplações transcendentais, leva a arma à cara, dedo ao gatilho.
O tempo suspenso!
Longe, mão na mão, o menino pergunta: – Deus existe, mamã?
Augusto Baptista
O AMESTRADOR
Atirou a bola ao ar. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.
Atirou a bola ao chão. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.
Atirou a bola à parede. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.
Ensaiou o exercício com outras bolas, alcançou iguais resultados.
Largou o emprego, abraçou o novo ofício: amestrador de bolas à quarta.
Augusto Baptista
ACORDEM!
Entra no metro, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.
Cercado de um tal alheamento, num impulso indignado, dispara:
– Acordem! Bando de sonâmbulos, acordem!
Erguem-se cabeças espantadas, à procura da voz.
Fala com mais ímpeto, grita:
– Acordem! Abram os olhos! Acordem! Vejam a desgraça, a miséria a tomar conta de nós! A droga! O clima! A fome! A guerra! O mundo a cair no abismo! Bando de sonâmbulos, acordem!
Há quem se afaste, vire costas, quem reaja:
– Cala-te, cretino!
Entre solavancos, encontrões:
– Queres limitar a liberdade dos outros?! Isso era no tempo da outra senhora!
No fundo, punhos no ar, alguém mais exaltado:
– Ponham o gajo lá fora!
Na vozearia, nos protestos, nos ânimos que fervem, o metro detém-se na estação seguinte.
Saem, entram passageiros, seguranças. Com presteza, a voz – levada de asa – agora inflama a gare. No burburinho, no sururu, insistente, entrecortada:
– ... a desgraça... a guerra... no abismo... aco... acor... dem!
O metro arranca, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.
Augusto Baptista
UMA EM TRÊS
Ela, cabeleira verde intenso; ele, mais virado para dar nas vistas, cabelo de um vermelho incendiado; loiro, muito loiro, o filhito do casal.
Quando saem à rua – pais nas pontas, filho no meio – toda a gente se queda em silêncio, em sentido. Por respeito à bandeira nacional.
Augusto Baptista
MANU SCRIPTUM
Autor conhecido e reconhecido nos meios literários, distingue-se pela riqueza das suas concisas escrituras, o rigor com que enlaça as palavras, entretece o discurso.
Como se tal não fora já uma demasia, projecta o talento para a órbita do absoluto quando inscreve as suas decantadas criações em gravuras publicadas pelo corpo, letra pequenina. Desta tarefa cuidam reputados redactores, Mestres na arte da tatuagem, a nata dos herdeiros do iluminismo medieval. O resultado faz dele um corpo de culto, um raríssimo e vivo manuscrito, numa dinâmica de paulatino enriquecimento de forma e conteúdo.
Avesso a consultas, a mediatismos, fecha-se no seu mundo. Quando sai, corpo vendado para nada revelar sobre si e a obra publicada, seguem-no legiões de curiosos, especialistas, a tentar aceder a alguma área corporal por imprevidência a descoberto. Praia é luxo que lhe está vedado. Relações amorosas não se lhe conhecem, para não dar a saber os universos recônditos da sua criação.
Tudo fazendo por passar despercebido, laborar em paz, paradoxalmente é um fenómeno de popularidade, o que deveras o amofina. Quando transpiram notícias de novas publicações vem gente de todo o lado bater-lhe à porta. Diligência inglória: não atende ninguém! E surgem desaguisados, conflitos, casos sérios de polícia, protestos incendiados.
Neste quadro de tensão e agudo conflito social, em prol do conhecimento, do livre acesso às fontes, aguardam os estudiosos – com nervosa impaciência – a publicação de uma curtida edição póstuma do manuscrito. E de copiosos fac-símiles.
Entrementes, mergulhado no seu mundo, continua ele produzindo-se.
Augusto Baptista
MOVIMENTO PERPÉTUO
Enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista a suscitar encadeamentos, a abrir horizontes narrativos desafogados ou meros vislumbres, um simples sopro ténue entre lábios, um sussurro, um esboço de palavra, de uma primeira palavra, a que se juntaria outro esboço um pouco mais nítido, depois outro, outro, articulando frases, narrativa.
Reflectindo, não será esta ausência, esta branca, ela própria tema de escrita, até para descobrir como fugir de momentos assim, ou que fazer quando se quer e não somos capazes? Sensato será largar tudo, arejar, voltar noutra ocasião, quando a nuvem se tiver dissipado? Há regras, tudo aleatório?
Tivesse eu certezas arriscaria a redacção de um manual de escrita para quem quer escrever e não sabe, não é capaz, um compêndio com assegurada procura, a proporcionar viver dele.
Como certezas não tenho, sequer as certezas da incerteza, enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista a suscitar encadeamentos, a abrir horizontes narrativos desafogados ou meros vislumbres, um simples sopro ténue entre lábios, um sussurro, um esboço de palavra, de uma primeira palavra, a que se juntaria outro esboço um pouco mais nítido, depois outro, outro, articulando frases, narrativa.
Reflectindo, não será esta ausência, esta branca, ela própria tema de escrita, até para descobrir como fugir de momentos assim, ou que fazer quando se quer e não somos capazes? Sensato será largar tudo, arejar, voltar noutra ocasião, quando a nuvem se tiver dissipado? Há regras, tudo aleatório?
Tivesse eu certezas arriscaria a redacção de um manual de escrita para quem quer escrever e não sabe, não é capaz, um compêndio com assegurada procura, a proporcionar viver dele.
Como certezas não tenho, sequer as certezas da incerteza, enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista...
Augusto Baptista
O CANAVIAL
Matutando na severa carência de zonas verdes na cidade, gizou um plano. Quando disso falava aos amigos, lhe diziam: eh pá, és maluco! Fez ouvidos de mercador, concretizou o projecto.
Em boa hora!
Rapado o cabelo, nessa ausência implantou o canavial. Que logo tratou de alimentar com uma breve linha de água, no sulco da risca.
Tudo bem penteado, tem agora na cidade um sítio abrigado para namorar, um simpático parque ambulante onde rumar aos domingos.
Alternativa, se arribado à beira-mar, bem pode urdir cana de pesca, um arpão. Com sorte, resolver o jantar: peixe grelhado nas brasas da vegetação.
Também, com paciência, labor, fácil é construir cabana, flautim. Um barco. A haste de uma bandeira! Difícil é, entre tantas desgraças que desgraçam o mundo, içar à cabeça a desgraça mais negra destas desgraças.
TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! Quando o despertador acordou, TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! cansado, levou as mãos à cabeça: TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! o canavial ainda lá estava. TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI!...
Augusto Baptista
APRENDER, APRENDER SEMPRE! - 2
Cultor da pedagogia assente na experiência, quis – de um modo impressivo – transmitir ao filho o ensinamento de que na vida não há impossíveis.
A viagem de avião, o acesso de pai e filho à savana, a selecção da presa, a abordagem dissimulada, o enlace, a amarração, tudo exacto. Impunha-se agora o simples remate: trazer para casa o elefante.
Augusto Baptista
APRENDER, APRENDER SEMPRE! - 1
Cultor da pedagogia assente na experiência, quis – de um modo impressivo – transmitir ao filho o ensinamento de que na vida há impossíveis.
A viagem de avião, o acesso de pai e filho à savana, a selecção da presa, a abordagem dissimulada, o enlace, a amarração, tudo exacto. Impunha-se agora o remate: trazer para casa o elefante!
Augusto Baptista
LIBERTAÇÃO
– A menina desculpe...
– Sim.
– Não me leve a mal...
– Sim.
– Eu só queria que a menina não fosse apanhada de surpresa.
– Diga, senhor, diga...
– Depois da esquina, por causa das obras ou assim, levanta-se ali um vento, está a ver?!
– Não!
– Um vento safado, de baixo para cima, um vento que leva tudo pelos ares!
– Sim, e depois?
– E depois, a menina com esse vestido rodado...
– Explique-se!
– Prontos, viu o que aconteceu à Marilyn com um vestido assim, numa fita de Hollywood?
– Obrigada pela dica! Deixe-o comigo!
O mundo suspenso, olhos vidrados: devagar ela saca o vestido! E num impulso, voando, dobra a esquina. O vento em êxtase. O vestido a drapejar, feito bandeira!
Augusto Baptista
NA SENDA DOS LIVROS
De repente ele aportou num jardim redondo inundado de livros. E gente. E patos, perus, galinhas pedreses, galos de crista vermelha, pavões, garnizés.
Entre stands, estantes, balcões, escaparates, arvoredo, largas avenidas: gente de olho nos livros. No frenesim literário, na corrente de pernas, sapatos, uma velha pavoa, o filhote atrás. Pequenino, a bem dizer pintainho. E já tão ávido de histórias, de palavras, de letras. Tão na senda dos livros.
Augusto Baptista
O AMANHÃ
Alguém muito à frente do seu tempo! Quando o mundo, à flor da pele, navegava na onda figurativa, ele abria-se ao cromatismo.
Após ensaios exploratórios de cores inesperadas, desde o laranja-dióspiro ao verde dos milheirais, rendeu-se ao azul. Experimentou-se todo azul do pescoço para baixo; dissonante, a cabeça, de um vermelho-tomate muito intenso, uniforme, dando o conjunto a magna impressão de um crepúsculo marítimo. O anúncio de uma longa noite.
Augusto Baptista
AMÉLIA!
Inesperado, no intenso entrecruzar de transeuntes na cidade, aborda-a pela lateral, grita: – Amélia!
Num ímpeto, o enlace, o demorado beijo na boca. Como nos filmes!
Na confusão, a custo ela consegue reagir. Em choque: – Parvo! Energúm...
Ele, vivamente consternado: – Mil perdões, minha senhora! Queira desculpar! Confundi-a com a Amélia, a minha namorada. Como me penalizo pela minha crónica miopia!
E logo se pisga, exultante com a contabilidade do dia: três Amélias de manhã; outras tantas pela tarde!
Augusto Baptista
CORPO SANTO
Tatuou-se com motivos bíblicos, Cristos crucificados, Santo Antónios, Nossas Senhoras, cenas da Via Sacra. Quando à noite se recolhia no recato do quarto matrimonial, despidas as vestes profanas, ela era uma exaltação de arte sacra.
Nessa hora de divina revelação, rendido, o marido caía de joelhos em oração, até às tantas. Quando acordava do transe bento, já a senhora dormia há horas que, na missa das 7, tinha de ir para o altar-mor.
Augusto Baptista
CLARICE!
Pela manhã, maquinal, pôs os óculos, abriu o jornal. Como de costume fez-se aos títulos, às fotos, aos anúncios. Raios! Mil raios! Nem títulos! Nem fotos! Nem anúncios! Nem jornal! Nem as mãos divisava! Raios! Mil raios! Cego! Estou cego!, gritou. Em pânico, chamou a mulher: Clarice! CLARICE! Só então deu fé do equívoco: estava com os óculos de ver eclipses!
Augusto Baptista
FAROESTE
– Com que então de camisa aberta a dar o peito às balas?! Temeridade ou insensatez? Uma dúvida que vais ter toda a eternidade para esclarecer!
Tchoc!
– Hás-de aprender, palerma, a escrutinar a qualidade das munições! Não é pistoleiro quem quer, é quem merece!
Tchoc!
– Só me saem duques! Lá terá de ser o narrador a rematar a história!
Tau! Tau!
Augusto Baptista
UF!
– Cuidadinho! Muito cuidadinho! Chegue-se para lá, se faz favor!
– Desculpe, queira desculpar. Passeios apertados, o calor...
– O calor não é para aqui chamado!
– Engana-se, o calor tem toda a culpa.
– Oh! Não diga disparates!
– Disparates?! É dos livros: o calor dilata os corpos, atira-nos para cima uns dos outros!
Augusto Baptista
O ECLIPSE
– Então, vizinha, o eclipse?
– 99,9%
– Só?! Oh, coitada!
– E a vizinha?
– Eu, na mouche: 100%! Apanhei-o todo. Até bati palmas!
– Parabéns!
– Obrigada! Não desanime, pode ser que no próximo tenha mais sorte.
– Mas esse eles dizem que só daqui a cem anos...
– Oh! Oh! Coração ao alto! O tempo passa a correr!
Augusto Baptista
ITINERÁRIOS DE RISCO
Relação a estrear, tudo por descobrir, ele pergunta:
– E tens tatuagens?
Ela, dengosa, as mãos enroladas:
– Bastantes!
– Tens onde?
Ela, olhos em branco:
– Ah, isso tens de ser tu a descobrir...
Tom sério, noutra onda, ele:
– Oh filha, eu, para andar na cidade, ligo o GPS! O que mais me faltava era andar por ti às voltas, sem rumo, à procura disso. Sujeito a perder-me. Ou a cair em algum buraco.
Augusto Baptista
HISTÓRIAS COM ASAS
– Então, como vamos de prosas?
– Não me posso queixar. E das que tilintam! Desse lado?
– Vão saindo. Devagar, vão saindo. Mas as minhas não têm essa densidade metálica. Não consigo.
– Há que insistir! Com trabalho, persistência...
– Acredito. Mas, sabe, as minhas prosas, quando as termino e as solto, elas voam.
Augusto Baptista
DÉJÀ VU
– Do you speak english?
– O que quer este gajo?
– Quer saber se falas a língua dele?
– E qual é a língua dele?
– Inglês!
– Como sabes que a língua dele é o inglês?
– Porque o gajo te perguntou se falas inglês.
– Eu falar inglês não quer dizer que a língua dele seja o inglês. Posso falar inglês e a língua dele ser outra.
– Ou não. Podes muito bem falar inglês e a língua dele ser o inglês.
– Mas eu não falo inglês, tu sabes!
– Não compliques. Falares ou não inglês não interessa para o caso.
– Então porque é que o gajo veio ter comigo?
– Para saber se falavas a língua dele, o inglês.
– Isso é o que tu dizes. Olha, pergunta-lhe se a língua dele é o inglês!
– Onde ele já vai! E tenho mais que fazer!
– Sempre o mesmo! Sempre a levar a tua avante!
– Lá estás tu! Não perdes a oportunidade de picar. Tens a quem sair!
– A minha mãe não é para aqui chamada!
– Uma pessoa vem à rua desopilar e arranjas logo uma cena. Arre!
– Vamos para casa antes que eu perca as estribeiras! Francamente...
– Francamente digo eu! Que feitio!
– Olha, minha querida, se não estás para me aturar isso tem bom remédio!
– Poupa-me! Por favor, poupa-me!
– Parlez-vous français?
– Só cá faltava este! O que quer o gajo?
– Quer saber se falas a língua dele.
– E qual é a língua dele?
– Francês!
– E como sabes que a língua dele é o francês?
– Porque o gajo te perguntou se falas francês.
Augusto Baptista
INCIDENTE DE CAÇA
Decidiu dedicar-se à caça. À caça ao carapau, com arpão!
Apetrechado, fez-se ao mar. Alçado numa penedia, arpão na mão, silencioso, perscrutador das entranhas marinhas, quedou-se à espera.
Longa espera.
Madrugada, ondulando rente ao fundo, um carapau. Dos grandes!
Na tensão do arremesso, uma voz. Familiar:
– Anibal, o que fazes em cima da cómoda com o garfo do churrasco apontado para mim?! Acorda, homem!
Era dona Antónia, a consorte, a lixar-lhe a caçada.
Augusto Baptista
IDEIAS AVANÇADAS
– O senhor tem ideias, inegável, mas...
– Isso é mau, senhor doutor?
– Depende.
– Como assim?
– Há limites.
– Limites para as ideias?
– Para tudo.
– Pode concretizar, senhor doutor?
– Essa de querer ir de Bragança à Serra da Estrela de submarino, convenhamos...
– Não alcanço...
– Não lembra ao diabo!
– Por amor de Deus! Água, temos. E com berbequim operam-se milagres!
– Pois, pois, e submarinos?
– Ó, raio, submarinos realmente há falta. Ideia tola, de facto.
– É nos detalhes que as grandes ideias falham, caro senhor! Outro galo cantaria se tivesse imaginado fazer a viagem à superfície.
– À superfície?!
– Exacto, à superfície!
– À superfície, como assim?
– De barco a remos, claro! Com estes preços, certamente não lhe passa pela cabeça ir num barco a gasolina. Augusto Baptista
HUMORES NÃO CORRESPONDIDOS
Cresceu e vive só numa exuberante ilha perdida. Mistério como ali apareceu, milagre como sobrevive.
De si não sabe, além das mãos, da sua sombra nua no areal, e do que enxerga do peito para baixo. Sem encontrar explicação para as flácidas pendências ao fundo, com humores tão inesperados, tão impositivos, a que ele não sabe como corresponder.
Augusto Baptista
RAIO DE LEMBRANÇA
Como torce a orelha, como ele torce a orelha por ter decidido tatuar a cara com a tromba de um elefante! Agora, por mais eufórico que ande, onde quer que meta a tromba, as pessoas, solidárias, perguntam-lhe amarguradas: – O que se passa consigo, porquê tão aborrecido?
Augusto Baptista
VERGÜENZA
A serpente vence o pescoço descoberto, transpõe o peito, aflora no umbigo, afunda-se sob a saia.
O transeunte, surpreso com trajecto da tatuagem, ávido por saber-lhe o destino, inquire a jovem:
– Queira desculpar, o rumo do réptil?
– Nem eu sei... Depois do que lhe é dado ver, acolhe-se em bom recato. São bichos pouco dados a serem revelados, esquivos, envergonhados.
Augusto Baptista
GRAUS DE FRESCURA
– Abençoado fresquinho, neste dia de canícula!
– Está agradável, bastante agradável. Está realmente fresco.
– Em dias assim, este fresquinho é uma benção.
– Sabe bem estar aqui, gozar este ambiente fresco. Até nos esquecemos do calor lá fora.
– É, este fresquinho é redentor.
– Não renegando este colo bom, esta aragem benfazeja, diria estar fresco, sem chegar a estar fresquinho.
– Oh meu amigo, se isto não é fresquinho, não sei o que seja...
– Se quiser ser justo, terá de concordar, está-se bem, ambiente maravilha, indesmentível. Está fresco, não há como negar, mas longe de estar fresquinho.
– Que raio é fresquinho, então? O amigo tira-me do sério! Fresquinho é rigorosamente... Nem mais nem menos.
– Seja como quer que seja! De qualquer modo, não saio da minha. Está fresco, simplesmente fresco!
– Fresquinho. Fresquinho!
– Fresco! Vou pôr-me ao fresco! Antes que o ambiente aqueça.
Augusto Baptista
O PONTO FINAL
As suas histórias têm a marca do real. Abomina, diz, o embuste da ficção. Frequente é andar de braço ao peito, pernas engessadas, mãos ligadas, que as suas narrativas são de verista rebimba o malho, cenas de pugilato de recambolesco entrecho, cacetada, colisões na autoestrada. A última narrativa é uma altercação ocorrida há anos num bar manhoso do faroeste, em que ele continua sem conseguir escrever o ponto final.
Augusto Baptista
UM CERTO SORRISO
– Ai, dona Otília, como lhe invejo o bom humor. Sempre risonha, bem disposta.
– Tem de ser. Não tenho outro remédio.
– Como assim?!
– Então, menina, na rua, para onde quer que me vire lá estão os letreiros...
– Os letreiros?!
– Sim, os letreiros a mandarem-me: Sorria, está a ser filmada. Limito-me a cumprir. E, digo-lhe, bem me custa.
Augusto Baptista
FORTUNA
Viveu a estroina de Paris nos anos loucos. Privou com nomes grandes da escrita, do pensamento, da arte.
Aberto a excessos, imerso nas derivas transgressoras desses tempos, um dia das profundezas do álcool acorda com o peito tatuado com grafismos cubistas, assinatura óbvia.
Os galeristas e marchands exaltaram a ventura do ungido: uma fortuna enterrada na pele!
O tempo passa, o sortudo envelhecendo, tardante o ansiado passamento. Para, enfim, a família curtir a obra e a vida.
Um Inverno chuvoso, frio: a boa nova! O velho foi-se. Foi-se à lareira. Feito em cinzas.
Augusto Baptista
Setembro anuncia, com dias mais curtos e noites menos quentes, o começo do fim do Verão e o recomeço do período escolar. Mas ainda é Verão, ainda apetece a praia, a sombra de um jardim, um bom livro para ajudar a retemperar neurónios de forma divertida e estimulante.

Há algum tempo que o livro que hoje vos recomendo, estava a aguardar oportunidade de recensão na minha banca de trabalho. Outras urgências se foram sobrepondo e este, a vários títulos, magnífico livro de Augusto Baptista e da ilustradora Emelie Östergren, foi ficando adiado.
Acontece que, na leitura de uma notícia veiculada pelo jornal online Abril, Abril, se afirma que o governo, no seu afã de mudar a estrutura do Estado, de o minar por dentro, visando entregar a privados tudo o que lhe for possível e dê lucro, pretende, na propalada Reforma da Educação, extinguir, entre outras malfeitorias que visam os departamentos culturais, o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares.
O PNL tem sido, ao longo da sua existência, e através da chancela, Ler+, um indicador seguro da qualidade literária e valia pedagógica das obras que recomenda. O livro de que hoje vos falo, A Senhora Prestável, é um desses casos.
A Senhora Prestável, de Augusto Baptista e Emelie Östergren é um livro de prodígios, a começar na linguagem solta, no humor e no surreal que envolve toda a estória, combinando essas qualidades com o traço feliz, inusual em livros afins, da ilustradora e no modo como esta estória, a tocar o absurdo, de generosidades extremas, se vai desenvolvendo para nosso gáudio e fortuna. A estória de dona Berta e do seu infeliz marido Dorival, só terá sido possível conceber, com seus incidentes em contínuo, dada a fecunda imaginação de Augusto Baptista, autor que tem na sua oficina criativa bastas incursões pela narrativa curta, pela poesia e pelo microconto que ele desenvolve com rara e surpreendente argúcia (veja-se o seu recente livro O Encantador de Sereias).
A Senhora Prestável, é um sadio desafio à imaginação do leitor que se deixe envolver por esta estória onde a magia habita, e percorra o desatino com que a benevolência de dona Berta irá transformar um modesto apartamento burguês dos subúrbios, um T1, numa alucinada selva urbana. Esta singular aventura começa logo em alta voltagem, quando dona Berta abre as portas do seu exíguo quarto para que os guarda-redes do clube local ali possam treinar, ou ceder a sua cama aos atletas do ginásio, utilizando-a como trampolim, ou a sala, aos domingos de manhã, para os ensaios da banda, para desespero do inconformado Dorival, saudoso dos seus tempos de África e do sossego dos grandes espaços, que nem aos domingos tem direito a um longo ressonar reparador.
O pior está para vir, com o dono do circo a pedir a dona Berta que lhe cuide por uma tarde de um elefante bebé, acabadinho de nascer. Por lá se instala, no quarto do T1, o infante paquiderme, de seu nome Korak, que dona Berta irá cuidar com desvelo, escondendo-o, no entanto, da fúria de Dorival. A tarde torna-se noite, e dona Berta, sem outra solução, esconde Korak debaixo da cama. O resto terás tu, leitor, que descobrir, que este A Senhora Prestável, irá prender-te até à última palavra.
Proponho-te, leitor, o seguinte exercício: desliga, por uma noite, a televisão, reúne a família na sala (este livro é para toda a gente, para todas as idades, até para os cotas que mantêm resquícios da criança que foram), e lê esta estória de Berta e Dorival em voz alta, ou divide as falas do texto pelos convivas. Verás que estimulante exercício, que prazer poderes fruir este humor inteligente, esta torrente imaginativa, este caudal de pequenos prodígios, e diverte-te leitor, em grupo, porque a festa das palavras deve ser vivida e partilhada por todos. E, no final, mostra o postal que os autores vos oferecem, estão lá ambos e as personagens, entre embondeiros, lianas e a luxuriante flora da selva (e a cama, dos sobressaltos de Dorival).
A Senhora Prestável – de Augusto Baptista e Emelie Östergren – Edição Xerefé Edições.
NEM TUDO LEMBRA
À saída do metro, um estranho casal: ela, chapéu com mil lacinhos coloridos a voar; ele, barbas brancas caídas sobre o peito descoberto.
Apesar do aparato, ninguém repara na dupla.
E bastaria uma simples troca de argumentos para pôr toda a gente de olhos vidrados: ele, chapéu com mil lacinhos coloridos a voar; ela, barbas brancas caídas sobre o peito descoberto.
Há ideias que não ocorrem, na hora de dar nas vistas.
Augusto Baptista
DURA LEX
Tatuou uma saia, casaco, blusa, meias de vidro, sapatos de salto alto.
Saiu.
Na rua, um polícia:
– A senhora não pode andar assim!
– Assim?
– Dessa maneira!
– Não estou a entender.
– Não pode andar nesses preparos!
– Desculpe, continuo a não entender.
– Não pode circular na via pública nesse desamparo de roupa!
– Qual o problema, estou de saia, casaco, blusa ...
– Pois, pois. E por baixo?
– Ah, como são coisas de pôr e tirar, isso...
– O argumento não colhe. A blusa também é da mesma natureza. A saia.
– ... isso achei que não havia necessidade.
– Bonito, não havia necessidade... E a decência?!
– Nada que as pessoas... Não nascemos vestidos!
– O decoro, os bons costumes...
– Hipocrisia!
– ... a lei!
– Ah, a lei! Confesso, não me lembrei. Pois, a lei!
– A ocorrência configura prevaricação grave. Dá cadeia!
– Que chatice!
– Nem lhe passa pela cabeça a encrenca!
– Que chatice! E o senhor guarda não poderia, sei lá, não poderia fechar os olhos?
– Fechar os olhos seria a última coisa a passar-me pela cabeça, minha senhora! Dura lex! Dura lex!
Augusto Baptista
O Encantador de Sereias, de Augusto Baptista
Domingos Lobo
Num tempo em que a fasquia da qualidade literária começa a colocar-se dramaticamente baixa; num tempo em que figuras mediáticas, obreiras de livros possidónios, despacham autógrafos como velas de procissão; do regresso com trombetas e marketing apurado de uma escrita de pipocas e chá de tília, promovida a acontecimento mundano nas páginas das revista de coração lorpa; escritinha que vende tanto como a música pimba anglo-saxónica e se pavoneia nos écrans das televisões como se de um detergente se tratasse; que se mostra nas fachadas de prédios degradados ao lado de cartazes de Tony Carreira; num tempo assim, a tocar o fundo (quanto mais se toca no fundo, mais ele desce), olhamos o céu e o negrume quase nos açoita, impiedoso.
Manuel Vasques Montalban, ao referir-se há uns anos, cáustico como sempre, à vida cultural madrilena, aventava que a literatura se reduzirá, a breve trecho, a pouco mais que de cordel, para ler de pé no intervalos das copas e das tapas. Se este era, no início do século XXI, o panorama desolador sentido pelos nossos vizinhos ibéricos – cujo consumo cultural é incomparavelmente superior ao nosso, com uma literatura pujante, influente e de dimensão planetária – o que então dizer de um pais onde apenas 15% da população lê com alguma regularidade, onde 4 milhões de almas se quedam sonolentas e passivas frente a écrans de televisão a olhar a sordidez dos quotidianos enjaulados de um grupo de rapazes e raparigas que dizem banalidades com a convicção boçal de quem está a rasurar badanas da história, fingem orgasmos frente ao olhar omnipresente das câmaras e só com muito esforço conseguem articular, ao longo de 24 horas de sujeição comum, mais de 100 vocábulos, incluindo parga de verborreia canhestra e larvar e bués da gíria.
No panorama desolador das artes em Portugal, pais cujos responsáveis por esta área (agora menorizada, com uma ministra que parece pouco focada na matéria e com um orçamento cada vez mais miserável, muito longe do 1% que os criadores reivindicam), cercados pela programação das estações televisivas, que impingem o telelixo recolhido de todos os esgotos audiovisuais do hemisfério, ainda há espaço para a leitura, ainda é possível produzir literatura que exija do leitor tempo e contemplação, como escreveu Maria Gabriela Llansol, ou simplesmente seja a festa da sensibilidade, como a definiu Werner Krauss? Literatura a fazer-se despertar-nos para outras profundezas da vida, a urdir-se de signos efabulatórios que reconduzem o leitor pelos caminhos das questões humanas e do racional, a um tempo arguta, organicamente límpida e envolvente – literatura para o gozo dos sentidos mas a inquietar-nos, a sorver-se devagar como um vinho de velhas cepas, a desenvolver uma ideia nova que nos intranquilize e nos faça sentir vivos.
Um livro assim, a despertar-nos para as coisas fecundas da vida, entre o absurdo e o surrealismo remoçado, a envolver a denúncia da amargura dos quotidianos frustres, a tornar o real mais nítido e tocante, existe, está aí, malgrado ter quase passado em silêncio por entre o bulício das vulgaridades que alguns média, acriticamente, colocaram em pedestais de sebo: O encantador de sereias, de Augusto Baptista, livro raro, de um pícaro hodierno, mas com memória, cavalgando o território das mini-histórias de modo feliz e solar.
Claro que Augusto Baptista, obreiro hábil de livros afins, nomeadamente os que deu à estampa para públicos mais jovens (O lobo mau no hospital; A senhora prestável), e outros que baloiçam perto de O encantador de sereias, como O caçador de luas, e esse notável, O medo não podia ter tudo, livro escrito a duas mãos por Augusto Baptista e Francisco Duarte Mangas.
As estórias de O encantador de sereias, se nos remetem amiúde para os Contos do Gin, de Mário-Henrique Leiria, no que nelas habita de surreal – sendo o surrealismo de Augusto Baptista de outra fundura discursiva, enfocando com destreza o real quotidiano –, têm, quer na linguagem, quer nos temos e no seu original modo de abordagem, uma marca identitária, uma voz singular, que faz deste livro algo de novo, de estimulante, que rasga o cinzentismo de alguma prosa bárbara com uma lúcida gargalhada, com sereno, inteligente sentido de humor.
Vejamos alguns exemplos: "APAGÃO – A luz quando volta, tem ideia? – Antes, espero, que a democracia apodreça. Mas nunca se sabe." ; O FOCO – Era um presidente de junta focado no seu projecto; só ouvia música de câmara."; LENTES DE AMARGURA – De óculos escuros! – Ossos do ofício. Ossos do ofício. – Então conte-me... – Ando a fazer um estudo sobre o salazarismo. Os óculos são para avaliar como eram esses tempos. – Ah, assim não consegue. Para alcançar a coisa o meu amigo precisa de óculos escuros sim, mas com lentes de ver para dentro, lentes que dêem para ver a amargura da alma."
Esta amargura da alma está igualmente presente em duas notáveis narrativas curtas: Noite de Natal e Carta ao Pai Natal.
Eis um livro para os dias de hoje, ao "contrário das ondas": feliz, assertivo, denunciador
In Avante, 29/1/2026