Enigma 3354
Ontem os problemas do mundo eram largos; hoje são largos e estreitos?
Augusto Baptista
Setembro anuncia, com dias mais curtos e noites menos quentes, o começo do fim do Verão e o recomeço do período escolar. Mas ainda é Verão, ainda apetece a praia, a sombra de um jardim, um bom livro para ajudar a retemperar neurónios de forma divertida e estimulante.

Há algum tempo que o livro que hoje vos recomendo, estava a aguardar oportunidade de recensão na minha banca de trabalho. Outras urgências se foram sobrepondo e este, a vários títulos, magnífico livro de Augusto Baptista e da ilustradora Emelie Östergren, foi ficando adiado.
Acontece que, na leitura de uma notícia veiculada pelo jornal online Abril, Abril, se afirma que o governo, no seu afã de mudar a estrutura do Estado, de o minar por dentro, visando entregar a privados tudo o que lhe for possível e dê lucro, pretende, na propalada Reforma da Educação, extinguir, entre outras malfeitorias que visam os departamentos culturais, o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares.
O PNL tem sido, ao longo da sua existência, e através da chancela, Ler+, um indicador seguro da qualidade literária e valia pedagógica das obras que recomenda. O livro de que hoje vos falo, A Senhora Prestável, é um desses casos.
A Senhora Prestável, de Augusto Baptista e Emelie Östergren é um livro de prodígios, a começar na linguagem solta, no humor e no surreal que envolve toda a estória, combinando essas qualidades com o traço feliz, inusual em livros afins, da ilustradora e no modo como esta estória, a tocar o absurdo, de generosidades extremas, se vai desenvolvendo para nosso gáudio e fortuna. A estória de dona Berta e do seu infeliz marido Dorival, só terá sido possível conceber, com seus incidentes em contínuo, dada a fecunda imaginação de Augusto Baptista, autor que tem na sua oficina criativa bastas incursões pela narrativa curta, pela poesia e pelo microconto que ele desenvolve com rara e surpreendente argúcia (veja-se o seu recente livro O Encantador de Sereias).
A Senhora Prestável, é um sadio desafio à imaginação do leitor que se deixe envolver por esta estória onde a magia habita, e percorra o desatino com que a benevolência de dona Berta irá transformar um modesto apartamento burguês dos subúrbios, um T1, numa alucinada selva urbana. Esta singular aventura começa logo em alta voltagem, quando dona Berta abre as portas do seu exíguo quarto para que os guarda-redes do clube local ali possam treinar, ou ceder a sua cama aos atletas do ginásio, utilizando-a como trampolim, ou a sala, aos domingos de manhã, para os ensaios da banda, para desespero do inconformado Dorival, saudoso dos seus tempos de África e do sossego dos grandes espaços, que nem aos domingos tem direito a um longo ressonar reparador.
O pior está para vir, com o dono do circo a pedir a dona Berta que lhe cuide por uma tarde de um elefante bebé, acabadinho de nascer. Por lá se instala, no quarto do T1, o infante paquiderme, de seu nome Korak, que dona Berta irá cuidar com desvelo, escondendo-o, no entanto, da fúria de Dorival. A tarde torna-se noite, e dona Berta, sem outra solução, esconde Korak debaixo da cama. O resto terás tu, leitor, que descobrir, que este A Senhora Prestável, irá prender-te até à última palavra.
Proponho-te, leitor, o seguinte exercício: desliga, por uma noite, a televisão, reúne a família na sala (este livro é para toda a gente, para todas as idades, até para os cotas que mantêm resquícios da criança que foram), e lê esta estória de Berta e Dorival em voz alta, ou divide as falas do texto pelos convivas. Verás que estimulante exercício, que prazer poderes fruir este humor inteligente, esta torrente imaginativa, este caudal de pequenos prodígios, e diverte-te leitor, em grupo, porque a festa das palavras deve ser vivida e partilhada por todos. E, no final, mostra o postal que os autores vos oferecem, estão lá ambos e as personagens, entre embondeiros, lianas e a luxuriante flora da selva (e a cama, dos sobressaltos de Dorival).
A Senhora Prestável – de Augusto Baptista e Emelie Östergren – Edição Xerefé Edições.
NEM TUDO LEMBRA
À saída do metro, um estranho casal: ela, chapéu com mil lacinhos coloridos a voar; ele, barbas brancas caídas sobre o peito descoberto.
Apesar do aparato, ninguém repara na dupla.
E bastaria uma simples troca de argumentos para pôr toda a gente de olhos vidrados: ele, chapéu com mil lacinhos coloridos a voar; ela, barbas brancas caídas sobre o peito descoberto.
Há ideias que não ocorrem, na hora de dar nas vistas.
Augusto Baptista
DURA LEX
Tatuou uma saia, casaco, blusa, meias de vidro, sapatos de salto alto.
Saiu.
Na rua, um polícia:
– A senhora não pode andar assim!
– Assim?
– Dessa maneira!
– Não estou a entender.
– Não pode andar nesses preparos!
– Desculpe, continuo a não entender.
– Não pode circular na via pública nesse desamparo de roupa!
– Qual o problema, estou de saia, casaco, blusa ...
– Pois, pois. E por baixo?
– Ah, como são coisas de pôr e tirar, isso...
– O argumento não colhe. A blusa também é da mesma natureza. A saia.
– ... isso achei que não havia necessidade.
– Bonito, não havia necessidade... E a decência?!
– Nada que as pessoas... Não nascemos vestidos!
– O decoro, os bons costumes...
– Hipocrisia!
– ... a lei!
– Ah, a lei! Confesso, não me lembrei. Pois, a lei!
– A ocorrência configura prevaricação grave. Dá cadeia!
– Que chatice!
– Nem lhe passa pela cabeça a encrenca!
– Que chatice! E o senhor guarda não poderia, sei lá, não poderia fechar os olhos?
– Fechar os olhos seria a última coisa a passar-me pela cabeça, minha senhora! Dura lex! Dura lex!
Augusto Baptista
O Encantador de Sereias, de Augusto Baptista
Domingos Lobo
Num tempo em que a fasquia da qualidade literária começa a colocar-se dramaticamente baixa; num tempo em que figuras mediáticas, obreiras de livros possidónios, despacham autógrafos como velas de procissão; do regresso com trombetas e marketing apurado de uma escrita de pipocas e chá de tília, promovida a acontecimento mundano nas páginas das revista de coração lorpa; escritinha que vende tanto como a música pimba anglo-saxónica e se pavoneia nos écrans das televisões como se de um detergente se tratasse; que se mostra nas fachadas de prédios degradados ao lado de cartazes de Tony Carreira; num tempo assim, a tocar o fundo (quanto mais se toca no fundo, mais ele desce), olhamos o céu e o negrume quase nos açoita, impiedoso.
Manuel Vasques Montalban, ao referir-se há uns anos, cáustico como sempre, à vida cultural madrilena, aventava que a literatura se reduzirá, a breve trecho, a pouco mais que de cordel, para ler de pé no intervalos das copas e das tapas. Se este era, no início do século XXI, o panorama desolador sentido pelos nossos vizinhos ibéricos – cujo consumo cultural é incomparavelmente superior ao nosso, com uma literatura pujante, influente e de dimensão planetária – o que então dizer de um pais onde apenas 15% da população lê com alguma regularidade, onde 4 milhões de almas se quedam sonolentas e passivas frente a écrans de televisão a olhar a sordidez dos quotidianos enjaulados de um grupo de rapazes e raparigas que dizem banalidades com a convicção boçal de quem está a rasurar badanas da história, fingem orgasmos frente ao olhar omnipresente das câmaras e só com muito esforço conseguem articular, ao longo de 24 horas de sujeição comum, mais de 100 vocábulos, incluindo parga de verborreia canhestra e larvar e bués da gíria.
No panorama desolador das artes em Portugal, pais cujos responsáveis por esta área (agora menorizada, com uma ministra que parece pouco focada na matéria e com um orçamento cada vez mais miserável, muito longe do 1% que os criadores reivindicam), cercados pela programação das estações televisivas, que impingem o telelixo recolhido de todos os esgotos audiovisuais do hemisfério, ainda há espaço para a leitura, ainda é possível produzir literatura que exija do leitor tempo e contemplação, como escreveu Maria Gabriela Llansol, ou simplesmente seja a festa da sensibilidade, como a definiu Werner Krauss? Literatura a fazer-se despertar-nos para outras profundezas da vida, a urdir-se de signos efabulatórios que reconduzem o leitor pelos caminhos das questões humanas e do racional, a um tempo arguta, organicamente límpida e envolvente – literatura para o gozo dos sentidos mas a inquietar-nos, a sorver-se devagar como um vinho de velhas cepas, a desenvolver uma ideia nova que nos intranquilize e nos faça sentir vivos.
Um livro assim, a despertar-nos para as coisas fecundas da vida, entre o absurdo e o surrealismo remoçado, a envolver a denúncia da amargura dos quotidianos frustres, a tornar o real mais nítido e tocante, existe, está aí, malgrado ter quase passado em silêncio por entre o bulício das vulgaridades que alguns média, acriticamente, colocaram em pedestais de sebo: O encantador de sereias, de Augusto Baptista, livro raro, de um pícaro hodierno, mas com memória, cavalgando o território das mini-histórias de modo feliz e solar.
Claro que Augusto Baptista, obreiro hábil de livros afins, nomeadamente os que deu à estampa para públicos mais jovens (O lobo mau no hospital; A senhora prestável), e outros que baloiçam perto de O encantador de sereias, como O caçador de luas, e esse notável, O medo não podia ter tudo, livro escrito a duas mãos por Augusto Baptista e Francisco Duarte Mangas.
As estórias de O encantador de sereias, se nos remetem amiúde para os Contos do Gin, de Mário-Henrique Leiria, no que nelas habita de surreal – sendo o surrealismo de Augusto Baptista de outra fundura discursiva, enfocando com destreza o real quotidiano –, têm, quer na linguagem, quer nos temos e no seu original modo de abordagem, uma marca identitária, uma voz singular, que faz deste livro algo de novo, de estimulante, que rasga o cinzentismo de alguma prosa bárbara com uma lúcida gargalhada, com sereno, inteligente sentido de humor.
Vejamos alguns exemplos: "APAGÃO – A luz quando volta, tem ideia? – Antes, espero, que a democracia apodreça. Mas nunca se sabe." ; O FOCO – Era um presidente de junta focado no seu projecto; só ouvia música de câmara."; LENTES DE AMARGURA – De óculos escuros! – Ossos do ofício. Ossos do ofício. – Então conte-me... – Ando a fazer um estudo sobre o salazarismo. Os óculos são para avaliar como eram esses tempos. – Ah, assim não consegue. Para alcançar a coisa o meu amigo precisa de óculos escuros sim, mas com lentes de ver para dentro, lentes que dêem para ver a amargura da alma."
Esta amargura da alma está igualmente presente em duas notáveis narrativas curtas: Noite de Natal e Carta ao Pai Natal.
Eis um livro para os dias de hoje, ao "contrário das ondas": feliz, assertivo, denunciador
In Avante, 29/1/2026
Enigma 3347
Encontrão: um encontro em grande?
Augusto Baptista
Inquietação
A pergunta irrompeu inesperada, madrugada alta. Embrenhado na leitura, eu não dera pela entrada da voz inquiridora.
Aturdido, fechei o livro, ensaiei fuga à questão. Afinal era tarde, horas de dormir, a televisão há muito mandara os meninos para a cama.
O ânimo perguntador não esmoreceu. Tentei ganhar tempo, trataríamos do caso pela manhã, com calma, de ta lha da men te.
Desconsegui.
De novo a pergunta, a inquietar a noite:
– Papá, o que é pensar?
E dei por mim a titubear. A enrolar-me em explicações. A tactear resposta que fizesse sentido. Para mim, para a minha pequena filha, então com quatro, cinco anos.
Pensar é um mundo. É resolver (ou não) um problema. De alta ou de básica matemática: dois mais dois? É uma palavra, uma poética. Um passeio de mãos dadas à beira mar, entre bandos de estorninhos. É perguntar: “Gostas de mim?” E ter resposta. Às vezes não.
É uma espécie de coceira no cocuruto, silêncio que nos revira para dentro, nos intriga, nos põe cismáticos, como se não houvesse lá fora, nem amanhã. E ao mesmo tempo é uma coisa natural. Como dizer, sentir, ouvir, sorrir, brincar. Ou respirar.
É existir, é obstinação, deriva. É equacionar o sentido da vida, individual, de todos. Um reflectir em relação, nós e os outros, nós e o universo. Para conhecer, para transformar.
Pensar é pesadelo. Lágrima. Gargalhada. É uma ideia que nos ata, uma arma florida, cravo com que se assalta o céu. É revolução. Sonho. Só sonhando se alcança a quimera para todos: igualdade, fraternidade, o pão, a paz.
É uma viagem de incessantes tentativas, um cair e levantar, um cair e levantar. E insistir. Um ensaio de saídas em labirintos, que se abrem em outros labirintos, em novos e infinitos labirintos. Com dissimulados alçapões.
É erguer os olhos, sondar o espaço, partir. Embarcar na construção de um mundo justo. Acreditar. Mesmo quando o horizonte é denso e o futuro arrepia.
Pensar é a busca da certeza tangível a cada hora. Uma incerteza, um sei lá. Saudação, liberdade. É ter ideias, morrer por elas: “Não falo!” É ânsia de verdade, de saber, conhecimento, cultura. Combate à vilania, à insânia. Um culto à elevação, à beleza, à bondade. À razão. É um pulsar. Um tem de ser. É a busca da figura geométrica essencial para modelar a harmonia, repor o equilíbrio natural. É cabelo desgrenhado sobre a fronte, um desatino.
Pensar é concluir que só lá vamos com os outros. Sozinhos não tem piada, não enche o peito, não ilumina o coração. Nem a razão. É movimento, levitação, caos para gerar novos portos de chegada, descobrir outras partidas. Um tilintar. Uma viagem, um voo cósmico. Sinfonia de campainhas e chocalhos, rebanho de ideias em transumância.
Campo lavrado, mão, pensar é punho, torno, cinzel, arado, barco, desenho, jornal. É livro, pauta de música, orquestra, canção. E ruas, cidades, festa, balão.
Pensar é um valor de sempre. Como Abril. Como estes anos a insistir. Este labor, este lutar. É uma gaivota sobre os céus do Porto, sobre os céus do mundo, rés ao passado, em voo livre rumo ao futuro?
Ajudem-me nesta inquietação:
– O que é pensar?
Augusto Baptista
VIVER
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Sessenta pulsações por minuto quantas pulsações são à escala de uma vida? Um batalhão de algarismos! E ninguém repara nisto, ninguém nisto se detém. E dizem os entendidos que a energia deste pulsar, à mesma escala vital, daria para mandar um engenho da Terra à Lua. E voltar! Respirar leva ao mesmo alheamento, às mesmas contas gradas.
Viver obriga a muito cálculo, a muita ponderação. Quantas batidas moram num coração apaixonado? Quantas inspirações por minuto tem um peito em sobressalto? Quantos passos numa vida? Quantas palavras são ditas?Quantos minutos dormidos, quantos outros acordados? Quantos segredos guarda a vida? Quantos pensamentos calados? Quantos outros assumidos? Quantas oportunidades perdidas? Quantas outras a que preço vencidas?
Viver é um enlace de muitas mãos, de plurais coloridos. Mãos que se querem abertas. Ao mundo, à relação, a outra mãos. Pelas asas da Ciência, da Arte. Do Pensamento. Da Paz. Da cooperação.
Viver é uma ânsia de luz, um semear de pão para todos. É uma oração de menino – que viver às vezes assusta – em noite de trovoada: Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita, livrai-nos desta tormenta, afastai-a para bem longe, onde não haja eira nem beira, nem folha de oliveira, nem pedrinha de sal onde possa fazer mal.
Viver é agir. É lutar. Justiça! Trabalho! Educação! Casa! Saúde! É construir um mundo justo, sustentável, feliz! É uma música, um poema, uma paixão! É um jogo de equilíbrios. Um cultivar de ternura, um rotundo não à guerra, uma aposta na harmonia rumo a um futuro fraterno, que abrace os homens, os montes, os pássaros e o arvoredo, a cantata dos rios, a serenata dos grilos. É um grito. Pelo Clima. Pela Terra. Pelo Universo. Pela Vida.
Viver é jogar às escondidas, é brincar, inocente saltar à corda, adulto plantar de esperança numa vida melhor, a pensar em nós e nos outros, em plurais geografias. É uma aposta no amanhã. Sem a fome, sem o ódio, sem o horror, sem a vilania que hoje impera pela mão dos poderosos.
Viver é enfim uma despedida: bom que seja o não acordar de um sonho. É uma partida, um início de viagem: aberto a que novas sinfonias?
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Augusto Baptista