quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Inquietação
A pergunta irrompeu inesperada, madrugada alta. Embrenhado na leitura, eu não dera pela entrada da voz inquiridora.
Aturdido, fechei o livro, ensaiei fuga à questão. Afinal era tarde, horas de dormir, a televisão há muito mandara os meninos para a cama.
O ânimo perguntador não esmoreceu. Tentei ganhar tempo, trataríamos do caso pela manhã, com calma, de ta lha da men te.
Desconsegui.
De novo a pergunta, a inquietar a noite:
– Papá, o que é pensar?
E dei por mim a titubear. A enrolar-me em explicações. A tactear resposta que fizesse sentido. Para mim, para a minha pequena filha, então com quatro, cinco anos.
Pensar é um mundo. É resolver (ou não) um problema. De alta ou de básica matemática: dois mais dois? É uma palavra, uma poética. Um passeio de mãos dadas à beira mar, entre bandos de estorninhos. É perguntar: “Gostas de mim?” E ter resposta. Às vezes não.
É uma espécie de coceira no cocuruto, silêncio que nos revira para dentro, nos intriga, nos põe cismáticos, como se não houvesse lá fora, nem amanhã. E ao mesmo tempo é uma coisa natural. Como dizer, sentir, ouvir, sorrir, brincar. Ou respirar.
É existir, é obstinação, deriva. É equacionar o sentido da vida, individual, de todos. Um reflectir em relação, nós e os outros, nós e o universo. Para conhecer, para transformar.
Pensar é pesadelo. Lágrima. Gargalhada. É uma ideia que nos ata, uma arma florida, cravo com que se assalta o céu. É revolução. Sonho. Só sonhando se alcança a quimera para todos: igualdade, fraternidade, o pão, a paz.
É uma viagem de incessantes tentativas, um cair e levantar, um cair e levantar. E insistir. Um ensaio de saídas em labirintos, que se abrem em outros labirintos, em novos e infinitos labirintos. Com dissimulados alçapões.
É erguer os olhos, sondar o espaço, partir. Embarcar na construção de um mundo justo. Acreditar. Mesmo quando o horizonte é denso e o futuro arrepia.
Pensar é a busca da certeza tangível a cada hora. Uma incerteza, um sei lá. Saudação, liberdade. É ter ideias, morrer por elas: “Não falo!” É ânsia de verdade, de saber, conhecimento, cultura. Combate à vilania, à insânia. Um culto à elevação, à beleza, à bondade. À razão. É um pulsar. Um tem de ser. É a busca da figura geométrica essencial para modelar a harmonia, repor o equilíbrio natural. É cabelo desgrenhado sobre a fronte, um desatino.
Pensar é concluir que só lá vamos com os outros. Sozinhos não tem piada, não enche o peito, não ilumina o coração. Nem a razão. É movimento, levitação, caos para gerar novos portos de chegada, descobrir outras partidas. Um tilintar. Uma viagem, um voo cósmico. Sinfonia de campainhas e chocalhos, rebanho de ideias em transumância.
Campo lavrado, mão, pensar é punho, torno, cinzel, arado, barco, desenho, jornal. É livro, pauta de música, orquestra, canção. E ruas, cidades, festa, balão.
Pensar é um valor de sempre. Como Abril. Como estes anos a insistir. Este labor, este lutar. É uma gaivota sobre os céus do Porto, sobre os céus do mundo, rés ao passado, em voo livre rumo ao futuro?
Ajudem-me nesta inquietação:
– O que é pensar?
Augusto Baptista
domingo, 18 de janeiro de 2026
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
VIVER
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Sessenta pulsações por minuto quantas pulsações são à escala de uma vida? Um batalhão de algarismos! E ninguém repara nisto, ninguém nisto se detém. E dizem os entendidos que a energia deste pulsar, à mesma escala vital, daria para mandar um engenho da Terra à Lua. E voltar! Respirar leva ao mesmo alheamento, às mesmas contas gradas.
Viver obriga a muito cálculo, a muita ponderação. Quantas batidas moram num coração apaixonado? Quantas inspirações por minuto tem um peito em sobressalto? Quantos passos numa vida? Quantas palavras são ditas?Quantos minutos dormidos, quantos outros acordados? Quantos segredos guarda a vida? Quantos pensamentos calados? Quantos outros assumidos? Quantas oportunidades perdidas? Quantas outras a que preço vencidas?
Viver é um enlace de muitas mãos, de plurais coloridos. Mãos que se querem abertas. Ao mundo, à relação, a outra mãos. Pelas asas da Ciência, da Arte. Do Pensamento. Da Paz. Da cooperação.
Viver é uma ânsia de luz, um semear de pão para todos. É uma oração de menino – que viver às vezes assusta – em noite de trovoada: Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita, livrai-nos desta tormenta, afastai-a para bem longe, onde não haja eira nem beira, nem folha de oliveira, nem pedrinha de sal onde possa fazer mal.
Viver é agir. É lutar. Justiça! Trabalho! Educação! Casa! Saúde! É construir um mundo justo, sustentável, feliz! É uma música, um poema, uma paixão! É um jogo de equilíbrios. Um cultivar de ternura, um rotundo não à guerra, uma aposta na harmonia rumo a um futuro fraterno, que abrace os homens, os montes, os pássaros e o arvoredo, a cantata dos rios, a serenata dos grilos. É um grito. Pelo Clima. Pela Terra. Pelo Universo. Pela Vida.
Viver é jogar às escondidas, é brincar, inocente saltar à corda, adulto plantar de esperança numa vida melhor, a pensar em nós e nos outros, em plurais geografias. É uma aposta no amanhã. Sem a fome, sem o ódio, sem o horror, sem a vilania que hoje impera pela mão dos poderosos.
Viver é enfim uma despedida: bom que seja o não acordar de um sonho. É uma partida, um início de viagem: aberto a que novas sinfonias?
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Augusto Baptista