VIVER
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Sessenta pulsações por minuto quantas pulsações são à escala de uma vida? Um batalhão de algarismos! E ninguém repara nisto, ninguém nisto se detém. E dizem os entendidos que a energia deste pulsar, à mesma escala vital, daria para mandar um engenho da Terra à Lua. E voltar! Respirar leva ao mesmo alheamento, às mesmas contas gradas.
Viver obriga a muito cálculo, a muita ponderação. Quantas batidas moram num coração apaixonado? Quantas inspirações por minuto tem um peito em sobressalto? Quantos passos numa vida? Quantas palavras são ditas?Quantos minutos dormidos, quantos outros acordados? Quantos segredos guarda a vida? Quantos pensamentos calados? Quantos outros assumidos? Quantas oportunidades perdidas? Quantas outras a que preço vencidas?
Viver é um enlace de muitas mãos, de plurais coloridos. Mãos que se querem abertas. Ao mundo, à relação, a outra mãos. Pelas asas da Ciência, da Arte. Do Pensamento. Da Paz. Da cooperação.
Viver é uma ânsia de luz, um semear de pão para todos. É uma oração de menino – que viver às vezes assusta – em noite de trovoada: Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita, livrai-nos desta tormenta, afastai-a para bem longe, onde não haja eira nem beira, nem folha de oliveira, nem pedrinha de sal onde possa fazer mal.
Viver é agir. É lutar. Justiça! Trabalho! Educação! Casa! Saúde! É construir um mundo justo, sustentável, feliz! É uma música, um poema, uma paixão! É um jogo de equilíbrios. Um cultivar de ternura, um rotundo não à guerra, uma aposta na harmonia rumo a um futuro fraterno, que abrace os homens, os montes, os pássaros e o arvoredo, a cantata dos rios, a serenata dos grilos. É um grito. Pelo Clima. Pela Terra. Pelo Universo. Pela Vida.
Viver é jogar às escondidas, é brincar, inocente saltar à corda, adulto plantar de esperança numa vida melhor, a pensar em nós e nos outros, em plurais geografias. É uma aposta no amanhã. Sem a fome, sem o ódio, sem o horror, sem a vilania que hoje impera pela mão dos poderosos.
Viver é enfim uma despedida: bom que seja o não acordar de um sonho. É uma partida, um início de viagem: aberto a que novas sinfonias?
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Augusto Baptista
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