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terça-feira, 15 de junho de 2010

Encruzilhada

O velho cidadão tinha um pensamento bíblico, de certo modo: tendia para as parábolas. Inquirido sobre o tempo alegorizava. Perguntado sobre o lugar divagou: Os gafanhotos chegaram em bando compacto e logo se juntaram aos outros no desfrute. Desde aí a aldeia se fez vila e assim sucessivamente. Sob o lema ‘Tudo pela ocupação, nada contra a concórdia’, as ruas foram baptizadas com nomes velhos e o semáforo posto a funcionar na medida do possível. Os buracos passaram a ser tapados ao ritmo conveniente, que todo o esforço oficial se concentrou nas variantes. E na poda das árvores, pelo tronco. A contemplação foi declarada uma desnecessidade, idem os livros, as salas de espectáculo, as magnólias proibidas de sujar o chão com pétalas, nas manhãs de Março. E, durante todo o ano, a ninguém foi consentido olhar as estátuas, de frente. Também de trás. As nuas. Que nada consta quanto às outras. Aos habitantes de todas as idades e condições foi autorizado um giro, sem abusos viciosos, numa das muitas montadas disponíveis: cavalos, elefantes e congéneres. Já expressamente vedada está, às senhoras, deambulação com sapato de salto alto pela zona empedrada, para não ferir o pavimento e as juntas pedregosas. Por fim, o insigne cidadão sobre o pedestal, no largo, foi lateralizado. Para não estorvar.

Antes que o sujeito de passagem, que tudo ouvira em silêncio, algo dissesse, o velho cidadão concluiu: Pergunta-me meu caro, bem vejo, porquê não apelar a um bando de pardais que, de uma vez, extermine a praga, os gafanhotos? E depois da engorda, me diga, quem comeria os pássaros?

In Histórias de passagem, Augusto Baptista, http://reporter.canalblog.com/

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Histórias de passagem

Cirandou pelas ruas principais. Passou por um ou outro café, viu amigos, perdeu-se em espaços que lhe recordaram a meninice.

O jardim era então o centro do mundo. Por altura das festas, a comissão mandava ali instalar um coreto e, pela tarde, arrancavam os concertos da banda. Felicidade era então uma realidade tangível, a significar marcha militar escutada de pé, à sombra das árvores frondosas. Nas noites de Verão havia canções, discos pedidos, animação de cabina sonora. E as famílias andavam naquela ribalta às voltas. Até estontearem e irem para a cama dormir.

Em certas noites, nas costas do jardim, havia bailes selectos, função de gente seleccionada, palco no salão sobre as arcadas. As senhoras e as meninas iam de vestido comprido a arrastar pelo chão, chapéus de aba opulenta e véu; os cavalheiros, casaca, luvas, laçarote. A fumar. E os excluídos iam ver, amontoados em alas à entrada, a estrugir de ciúme.

Ácidas lembranças.

Hoje o jardim é centro de nada. Mataram-lhe a função romântica. Despiram-no do chilreio dos pássaros em bando, à tardinha. E, do aconchego das árvores, resta ironia: "Respeitar e conservar as plantas é dever de nós todos. Não maltrateis as árvores nossas amigas".

Olhados de soslaio por uma fulana gorda, nádega resplandecente a sobressair entre azulejos, agora sobrevivem às vezes por ali alguns mais-velhos à conversa, sentados nos bancos. Outros, isolados, disputam imaginárias sombras, a ver passar o tempo. A ver passar o tempo. A ver passar o tempo. E entre todos paira um fulano andrajoso, descalço, a pedir. Toca umas composições melancólicas, sopro grave expelido num engenho de boca larga. Faz recortes, maravilhas com tesoura, papel. Sem que alguém repare, lhe dê importância, esmola. O homem sorri, prossegue o seu destino e sorri. Sem ressentimentos.

In Histórias de passagem, http://reporter.canalblog.com/, Augusto Baptista