Enigma 3369
Incendiário é quem dá tambores ao infantário?
Augusto Baptista
NA SENDA DOS LIVROS
De repente ele aportou num jardim redondo inundado de livros. E gente. E patos, perus, galinhas pedreses, galos de crista vermelha, pavões, garnizés.
Entre stands, estantes, balcões, escaparates, arvoredo, largas avenidas: gente de olho nos livros. No frenesim literário, na corrente de pernas, sapatos, uma velha pavoa, o filhote atrás. Pequenino, a bem dizer pintainho. E já tão ávido de histórias, de palavras, de letras. Tão na senda dos livros.
Augusto Baptista
O AMANHÃ
Alguém muito à frente do seu tempo! Quando o mundo, à flor da pele, navegava na onda figurativa, ele abria-se ao cromatismo.
Após ensaios exploratórios de cores inesperadas, desde o laranja-dióspiro ao verde dos milheirais, rendeu-se ao azul. Experimentou-se todo azul do pescoço para baixo; dissonante, a cabeça, de um vermelho-tomate muito intenso, uniforme, dando o conjunto a magna impressão de um crepúsculo marítimo. O anúncio de uma longa noite.
Augusto Baptista
AMÉLIA!
Inesperado, no intenso entrecruzar de transeuntes na cidade, aborda-a pela lateral, grita: – Amélia!
Num ímpeto, o enlace, o demorado beijo na boca. Como nos filmes!
Na confusão, a custo ela consegue reagir. Em choque: – Parvo! Energúm...
Ele, vivamente consternado: – Mil perdões, minha senhora! Queira desculpar! Confundi-a com a Amélia, a minha namorada. Como me penalizo pela minha crónica miopia!
E logo se pisga, exultante com a contabilidade do dia: três Amélias de manhã; outras tantas pela tarde!
Augusto Baptista
CORPO SANTO
Tatuou-se com motivos bíblicos, Cristos crucificados, Santo Antónios, Nossas Senhoras, cenas da Via Sacra. Quando à noite se recolhia no recato do quarto matrimonial, despidas as vestes profanas, ela era uma exaltação de arte sacra.
Nessa hora de divina revelação, rendido, o marido caía de joelhos em oração, até às tantas. Quando acordava do transe bento, já a senhora dormia há horas que, na missa das 7, tinha de ir para o altar-mor.
Augusto Baptista
CLARICE!
Pela manhã, maquinal, pôs os óculos, abriu o jornal. Como de costume fez-se aos títulos, às fotos, aos anúncios. Raios! Mil raios! Nem títulos! Nem fotos! Nem anúncios! Nem jornal! Nem as mãos divisava! Raios! Mil raios! Cego! Estou cego!, gritou. Em pânico, chamou a mulher: Clarice! CLARICE! Só então deu fé do equívoco: estava com os óculos de ver eclipses!
Augusto Baptista
FAROESTE
– Com que então de camisa aberta a dar o peito às balas?! Temeridade ou insensatez? Uma dúvida que vais ter toda a eternidade para esclarecer!
Tchoc!
– Hás-de aprender, palerma, a escrutinar a qualidade das munições! Não é pistoleiro quem quer, é quem merece!
Poc!
– Só me saem duques! Lá terá de ser o narrador a rematar a história!
Tau! Tau!
Augusto Baptista
UF!
– Cuidadinho! Muito cuidadinho! Chegue-se para lá, se faz favor!
– Desculpe, queira desculpar. Passeios apertados, o calor...
– O calor não é para aqui chamado!
– Engana-se, o calor tem toda a culpa.
– Oh! Não diga disparates!
– Disparates?! É dos livros, o calor dilata os corpos, atira-nos para cima uns dos outros!
Augusto Baptista
O ECLIPSE
– Então, vizinha, o eclipse?
– 99,9%
– Só?! Oh, coitada!
– E a vizinha?
– Eu, na mouche: 100%! Apanhei-o todo. Até bati palmas!
– Parabéns!
– Obrigada! Não desanime, pode ser que no próximo tenha mais sorte.
– Mas esse eles dizem que só daqui a cem anos...
– Oh! Oh! Coração ao alto! O tempo passa a correr!
Augusto Baptista
ITINERÁRIOS DE RISCO
Relação a estrear, tudo por descobrir, ele pergunta:
– E tens tatuagens?
Ela, dengosa, as mãos enroladas:
– Bastantes!
– Tens onde?
Ela, olhos em branco:
– Ah, isso tens de ser tu a descobrir...
Tom sério, noutra onda, ele:
– Oh filha, eu, para andar na cidade, ligo o GPS! O que mais me faltava era andar por ti às voltas, sem rumo, à procura disso. Sujeito a perder-me. Ou a cair em algum buraco.
Augusto Baptista
HISTÓRIAS COM ASAS
– Então, como vamos de prosas?
– Não me posso queixar. E das que tilintam! Desse lado?
– Vão saindo. Devagar, vão saindo. Mas as minhas não têm essa densidade metálica. Não consigo.
– Há que insistir! Com trabalho, persistência...
– Acredito. Mas, sabe, as minhas prosas, quando as termino e as solto, elas voam.
Augusto Baptista
DÉJÀ VU
– Do you speak english?
– O que quer este gajo?
– Quer saber se falas a língua dele?
– E qual é a língua dele?
– Inglês!
– Como sabes que a língua dele é o inglês?
– Porque o gajo te perguntou se falas inglês.
– Eu falar inglês não quer dizer que a língua dele seja o inglês. Posso falar inglês e a língua dele ser outra.
– Ou não. Podes muito bem falar inglês e a língua dele ser o inglês.
– Mas eu não falo inglês, tu sabes!
– Não compliques. Falares ou não inglês não interessa para o caso.
– Então porque é que o gajo veio ter comigo?
– Para saber se falavas a língua dele, o inglês.
– Isso é o que tu dizes. Olha, pergunta-lhe se a língua dele é o inglês!
– Onde ele já vai! E tenho mais que fazer!
– Sempre o mesmo! Sempre a levar a tua avante!
– Lá estás tu! Não perdes a oportunidade de picar. Tens a quem sair!
– A minha mãe não é para aqui chamada!
– Uma pessoa vem à rua desopilar e arranjas logo uma cena. Arre!
– Vamos para casa antes que eu perca as estribeiras! Francamente...
– Francamente digo eu! Que feitio!
– Olha, minha querida, se não estás para me aturar isso tem bom remédio!
– Poupa-me! Por favor, poupa-me!
– Parlez-vous français?
– Só cá faltava este! O que quer o gajo?
– Quer saber se falas a língua dele.
– E qual é a língua dele?
– Francês!
– E como sabes que a língua dele é o francês?
– Porque o gajo te perguntou se falas francês.
Augusto Baptista