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terça-feira, 27 de abril de 2010

Humor ao alto I

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Volto já


As cidades são também povoadas de pequenos nadas: avisos, recados, informações, breves escritos afixados em montras, portais, paredes. Um mundo de palavras triviais, discurso de ninharias, que, na irrelevância da sua letra por vezes miudinha, muito diz deste tempo e de nós.


De repente, vejo-me na infância, a galinha choca no açafate, os ovos, excessivos, a extravasarem por debaixo das penas. Passados dias, nascem. Breve, andarilham em desenvolta fila indiana atrás da mãe adoptiva. E esparrinham-se nas poças de água, nadam. Num ápice, crescem: um pandemónio! Couves, alfaces, pés de milho, vorazes, estorcegam tudo. Durou anos o alvoroço de grasnados: feliz sobressalto.
Volto à folha de papel, afixada na pequena loja no Mercado do Bolhão: "Há ovos de gansa galados". Sob as letras, desenho em computador, a simpática bicharada que conheci na infância. É o campo a insinuar-se na cidade, em tempo de hardware. A motivar evocações.
Percorrer os espaços habitados é viajar pelo mundo das palavras. Desde as fachadas, muros, janelas, montras, enfim, de todo o lado, nos espreitam. São letreiros, painéis, avisos, anúncios. O verbo domina os lugares, maiúsculas altaneiras ou modestas mensagens em papeletas e cartões, ao rés da terra.
Quem passear o olhar, enreda-se em mudos diálogos com textos manuscritos ou impressos, curtos quase sempre, estranhos ou dúbios às vezes: "Liquidação de pares isolados", "Jogos cama — casal 18.70 euros", "Há bicha coreana", "Fazem-se bolos com fotografia".
Com atenção, descobrem-se notícias dramáticas: "Avisamos os nossos estimados clientes que este estabelecimento se encontra encerrado, por motivo de doença do proprietário"; chamadas de atenção inesperadas: "Para leitura do contador da água, é favor dirigir-se ao Restaurante Festival falar com o senhor Serafim". Informações imperativas: "Qualquer peça de vestuário que fique neste estabelecimento para além de 2 meses (60 dias) é considerada propriedade do mesmo, para fazer face às despesas existentes com a referida peça"; sedutores desafios: "Presunto de Chaves"; enigmáticas propostas: "Aqui encontra resposta imediata aos seus desejos".
Hoje dominantes são as preocupações de segurança, com a explosão de sinais: "Este estabelecimento encontra-se sobre vigilância electrónica. Entre sorria pois está a ser filmado", "Os cofres deste balcão estão equipados com sistema de abertura retardada", "Área protegida com sistema de protecção de intrusão". Frequentes são as recomendações afixadas à entrada dos prédios, redacção muitas vezes elaborada com evidência gráfica, desde o lacónico "Feche a porta p. f.", até ao prolixo "Atenção, para o interesse de todos, fechar a porta sempre que saia ou entre no prédio — agradece-se ainda que feche a porta à chave após as 22 h".
A onda securitária chegou às igrejas. Na Capela das Almas, na rua de Santa Catarina, no Porto, expressamente se esclarece, logo no átrio: "Pelas igrejas também andam ladrões. Não perca de vista a sua carteira, o guarda-chuva e outros objectos pessoais. Vigie o que é seu".
Ler as cidades inclui perscrutar o chão, ver onde pôr o pé, decifrar densas escrituras nos pavimentos, coexistindo de quando em quando com desdenhadas recomendações: "Não deixe na via pública ou nos jardins os dejectos do seu cão. Utilize os sacos-cão que estão ao seu dispor, gratuitamente. O não cumprimento deste dever é punível com uma coima de 5.000$00 a 25.000$00".
Omnipresentes são as propostas de negócio "Vende-se", "Passa-se", "Arrenda-se", "Liquidação Total": mensagens que frequentemente amortalham dramas, problemas. E há o apelo ao consumo, os mágicos: "Saldos", "Rebaixas", "Promoções", "Tudo ao desbarato", "Preços loucos"; há propostas apetitosas: "Temos pão de Favaios, Foz Côa, Mirandela", "Há broa com chouriço", "Tripas à moda do Porto". Para olhares sequiosos: "Sumo de laranja", "Sangria a copo", "Vinho tinto em garrafão — só 3,00 euros".
Não faltam inquietações: "Está satisfeito com o que ganha?", "Quer perder peso?", "IRS, entrega de declarações", "Mede-se a tensão arterial", "Funerária, serviço permanente". Em contrapartida, abrem-se oportunidades: "Admite-se pizzeiros/as", "Precisa-se empregada das 4 da tarde às 10. Falar aqui". Espreitam propostas culturais: "O coração de um pugilista", "Árabe — Curso de iniciação", "Explicações — Matemática, Física, Química", "Sabe dançar?". E há surpresas, boas notícias: "Vende-se roupa para senhoras fortes", "Sexta estamos abertos", "Já há alheiras de caça", "Furam-se — orelhas, nariz — sem dor".
As tentações abundam, plurais: "Streep tease", "Artigos eróticos — Cabinas de video", "Programas especiais para noivos", "Óculos de sol". Os acenos da fortuna são constantes: "Raspe e ganhe", "Amanhã anda a roda", "Jackpot". Desabafos indignados: "Puta q pariu os hip-hopers"; desesperados: "Sofia, amo-te". Alertas de emergência, frase-relâmpago para debelar o perigo em instalações de alimentação de gás, nos prédios: "En cas de danger enfoncer et pousser le bouton rouge". Em socorro das dúvidas, anúncios na cidade publicitam "Traduções".
Quem rumar à sede da Associação de Surdos do Porto e, aí chegado, der com o nariz na porta, neste transe, útil é saber que o recurso é auditivo: "(...) tocar campainha 2.º andar esquerdo". Por ali perto, num velho prédio fronteiro ao jardim de S. Lázaro, quem quiser fazer-se anunciar tem de agir conforme instrutório em esmalte, constante na porta de entrada, regendo o número de golpes do batente: "3.º andar — 3 vezes; 2.º andar — 2 vezes; 1.º andar 1 vez; rés-do-chão 4 vezes". Uma ida Guimarães torna imperdível, no centro histórico, descobrir a "Calça sexual com separação das pernas — a calça mais mediática do século". No Porto, há "Promoção de calças de veludo" e de "soutiens".
Por via das palavras, abrem-se caminhos de relação com o contexto. Devagar, de perto, letra a letra, se decifram os espaços. Com a vida a correr-nos rasteira, temos olhos para minudências: "Trabalhe a partir de casa ou estabelecimento ganhando até 9.000$00/dia. Part ou full time. Marque entrevista", "Consultas espirituais com marcação ou no local". Endinheirados, perscrutamos cotas altas: "Tempo de Sol — Maiorca, Tenerife, Las Palmas".
Constante é a rua, habitada por palavras banais, mensagens desdenhadas, invisíveis: "Estou na Estrela dos Caldeireiros, no tasco, 156". Referências fugazes, textos insignificantes, que ganham dimensão inesperada, estatuto, quando olhados de frente. A ponto de se tornarem documento, testemunho intrigante ou mesmo surreal, deste tempo e de nós.
(© Augusto Baptista)

sábado, 24 de abril de 2010

NÃO SE APROXIME DA MACACA









Simples mortais, filhos do pecado da maçã, crescemos no fio da navalha, sempre com o pé na transgressão: aos mandamentos, às leis, regulamentos, códigos, regras, disposições, posturas, alvarás, circulares. Sempre na mira de decretos exarados pelo vizinho, a senhora da esquina, o zelador do jardim, o dono da mercearia.
Proibir compensa?
No centro de Luanda, corriam os anos 80, bem perto do largo da Mutamba, havia um posto de transformação de electricidade. Sem WC nas redondezas, eleita era uma parede do dito posto, a mais recatada. Para travar o excesso, alguém resolveu declarar, letra gorda, entre faíscas letais desenhadas na parede: “Proibido urinar, perigo de morte em alta tensão”.
Apesar da pena capital, a parede e o chão sobrenadavam em evidências transgressoras.
Também em Luanda, por esta altura, um recanto da cidade transbordava de lixo. Sobranceiro ao monturo, aviso: “Quem aqui deitar lixo é batido”.
Por cá, tempos idos (séc. XVI), a Câmara de Viseu resolveu impedir namoricos nos mercados e fontanários. Nestes termos, decidiu que “Nenhum homem de 14 anos para cima, sob pena de armas perdidas e dez dias de cadeia, podia ir conversar com padeiras e moças que estivessem vendendo, não tendo que comprar e que vender, ou esperar as moças que fossem para a fonte de Santa Cristina(…)”.
No concelho da Vidigueira, outra velha postura propunha-se alcançar idênticos objectivos, com os mesmos prováveis insucessos: “Proibe-se que nenhum homem de doze annos para çima acompanhe ou faça espera às mulheres que vão ao poço, ou ribeiro, que fazendo-o terão de pena quinhentos reis, salvo se fôr parente chegado, ou constando ser pessoa que vem de passage” (in Direito Administrativo das Autarquias Locais, de António Francisco de Sousa).
Proibição cortês, travo poético, encontrei em dois pequenos letreiros, anos 90, em S. Tomé e Príncipe. Num deles, o alvo era a conversa fiada no local de trabalho: “Camarada: Estamos a produzir. Se vem para conversar, não entre, volte para o seu lugar de produção. Obrigado.” No outro, proibiam-se maus modos, falta de educação: “Atenção amigo ou amiga! Se vem para solicitar alguém aqui nesta oficina, entre disciplinadamente e solicite. Aqui é um sector de trabalho. Falta de respeito, não. Sejamos educados. Obrigado.”
De regresso ao chão pátrio, impedida quase em geral é a entrada de animais nos cafés; como se nós, homens e mulheres, animais não fôssemos. Justamente aí, num café, foi onde um dia se me deparou espantosa situação.
Em zona de passagem no interior do estabelecimento, entre cadeiras, choco com uma tábua ao alto. Colado à tábua, letra gatafunhada, um papel: “Cuidado: Não mexer no pau, senão o televisor pode cair. Obrigado.” Surpreso, olho: sobre a cabeça, equilibrado pelo precário suporte de madeira, o anunciado televisor. Cai, não cai.
Analisada em detalhe, a geringonça parecia inspirada em armadilha guerrilheira. Se escapei, ao letreiro o devo!
Entre todas as proibições com que na vida me confrontei, e muitas foram, talvez o caso mais extraordinário seja o que ainda hoje perdura no mercado da Foz Velha, Porto. No murete de entrada – placa de mármore, a propor eternidade – ao nível dos olhos das criaturas de quatro patas, se lhes faz saber: “É expressamente proibida a entrada neste mercado de quaisquer animais domésticos, particularmente de canídeos”.
Basta de histórias. É hora de passar em revista o resultado do roteiro. Encontrei exemplares com asa prepotente, outros com carga ameaçadora, de mau gosto. Mas também me deparei com recados salvadores, alertas oportunos, restrições necessárias, velhas relíquias. Trago-lhe mensagens enigmáticas, surreais, bem-humoradas. E lembre-se: “Não se aproxime da macaca”.
(Augusto Baptista, in "Notícias Magazine")