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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cavalhadas

Cavalhadas na Beira Baixa
Augusto Baptista

Em Monforte da Beira e no Rosmaninhal, freguesias raianas vizinhas do Tejo, o povo festeja o S. João (23 e 24 de Junho) de um modo especial. O santo é aqui agarrado pela família do Alferes e dos Padrinhos – gesto devoto, cada ano renovado – o que incendeia a noite em galopes de fogo, alvoroça os dias com disputas hípicas e cortejos gordos de cavalaria[1].


Rosmaninhal cada vez mais longe, o carro a galgar, veloz, Castelo Branco ainda distante. Ensonado, oiço o motorista a falar da vida, da região, da falta de mão-de-obra, da desertificação, deste tempo de oportunidades perdidas. E do negócio das ovelhas e do queijo, que junta à exploração de um café, e ao carro de praça, e às boas perspectivas na venda de materiais de construção. Demasiadas frentes de trabalho para um homem só, mais a mulher, que os filhos saíram da terra.
E a paisagem a fugir para trás, como o tempo, eu, atenção concentrada para a frente, na ideia de apanhar a camioneta das nove da noite em Castelo Branco, para arribar no Porto ao alvorecer, após três horas de espera em Coimbra.
Foi curta a passagem por Monforte da Beira e pelo Rosmaninhal, onde só um motivo forte — uma festa especial, as Cavalhadas — me poderia trazer a lugar tão raiano, Tejo a cingir a cintura da nossa geografia.
Das Cavalhadas tive notícia pelos escritos de Jaime Lopes Dias, a que Azinhal Abelho deu eco nos anos 70 (Teatro Popular Português, IV): «Representações populares das mais alegres e movimentadas, as cavalhadas fazem parte do ciclo festivo do S. João e realizam-se, ainda hoje, nas povoações de Monforte da Beira (Castelo Branco) e Rosmaninhal (Idanha-a-Nova) (...)».
Na região, outro é o entendimento: «Para o Rosmaninhal, Cavalhadas significa a tradição de partir os púcaros, esse tipo de jogos, na festa de Agosto. Como designação da festa de S. João Baptista, Cavalhadas é um termo novo, vindo de fora», opina Mário Chambino, autor de um estudo recente sobre o evento, no Rosmaninhal. Por perto, cavaleiros a toda a brida, correm a argolinha. «Destas corridas, diz-se aqui que é tirar o galo. E quando os cavalos andam na rua com a bandeira do S. João, a isso chamam a volta».
É também esta a perspectiva que surpreendi em Monforte da Beira. Diz Luís Matos Pires, o Cotovio, criador de cavalos: «As Cavalhadas aqui é partir panelas de barro, a 15 ou a 16 de Agosto. As panelas têm lá dentro um pombo, uma rola, água, cinza, o que calha... e o cavaleiro leva com tudo em cima. Estas festas, agora, não são Cavalhadas, são procissões do S. João».
A coincidência de opiniões coexiste com uma grande proximidade de procedimentos, no modo de fazer a festa nas duas povoações. E o curioso é que, quer em Monforte, quer no Rosmaninhal, uns não conhecem a festa dos outros. Como se os dois povos, tão perto, vivessem de costas voltadas.

Encoste-se aqui

A vinda à Beira Baixa impôs plano. Como ir, onde ficar? Quando se viaja em transporte público, o país cresce. O tempo dilata-se. Tudo se complica. É preciso ponderar a acção, calcular os gestos, medir os passos. Porto - Castelo Branco, com escala em Coimbra, são cerca de quatro horas e meia de autocarro expresso. De comboio seria bem pior: obras na linha, em certos troços da Beira Baixa, opções de horário reduzidas.
Pernoito em Castelo Branco, 22 de Junho de 2001. Pela manhã de 23 rumo para Monforte da Beira, carro de aluguer: três contos e duzentos para vencer uma vintena de quilómetros. Cá chegado, ataco um pão com presunto, mais ornato do que substância. De faca e garfo, só de encomenda se almoça aqui.
Complicada, a dormida. Onde ficar? Quartos para alugar, não há. Destino é o relento, máquinas fotográficas a servir de travesseiro, ou uma ida para Castelo Branco, ou para o Ladoeiro, madrugada alta. E transporte? Na encruzilhada, vale a disponibilidade dos festeiros: «Encoste-se aqui, se quiser. Não repare, nem ligue ao barulho. Vai ser a noite toda».
São três da tarde. Encostado, estou em casa dos festeiros (gesto nobre, que agradeço), naquela que é hoje a rua principal de Monforte. Júlio Teixeira e a mulher, Maria Manuela, emigrantes em França, vieram de propósito de Tours para pagar promessa. Agarraram o S. João, agora têm de fazer a festa: garantir a sagração do santo conforme as tradições, assegurar os comes e bebes, a música ao vivo no arraial, enfim, demonstrar, na prática, que foram e são merecedores da benfeitoria.
S. João Baptista está representado em um estandarte que os festeiros desfraldarão à janela de casa. E que, em cortejo hípico encabeçado pelo Alferes e dois Padrinhos, será depois levado em repetidos percursos pelo povoado, itinerários e horas que a memória guarda.
Alferes é Tiago Oliveira, encorpados 17 anos, filho do casal de festeiros, igualmente em Tours, também ele daí vindo de propósito para levar a bandeira. Padrinhos são os genros Luís Carvalho e Luís Furtado, ambos a viver em Lisboa.
A alma da casa é Paula Carvalho, irmã do Tiago e mulher do Luís Carvalho. Estudou a festa, a tradição, industriou-se ao pormenor sobre o que fazer e como fazer. E fala do assunto com sabedoria. Sem hesitação, sintetiza o programa, deixa antever as atribulações que me esperam.
Daqui a pouco, o S. João virá para a janela da casa — elucida Paula. Nessa altura, o povo e um grupo de cantadeiras, a tocar adufe, darão as boas-vindas ao santo. À noitinha, haverá uma volta de cavalos ao povo. O S. João sai da janela e será levado pelo Alferes, pelos dois Padrinhos. «Atrás segue o acompanhamento: pessoas em cima de burros e de cavalos. Tudo a correr as ruas, a saltar fogueiras, a dar vivas ao santo».
O programa das festas, ainda em 23, irá completar-se com arraial: «Sardinha assada grátis, as bebidas ao preço simbólico de cem escudos, conjunto musical». Amanhã, o cortejo sairá pela manhã, «sempre a andar devagarinho», adverte Paula. À janela, as pessoas porão fitas na bandeira, darão dinheiro. Depois da missa, à tarde, o S. João voltará a sair: vai à Devesa, às corridas de cavalos, de burros e de gente a pé. Ganhará um galo quem primeiro chegar à meta. Para rematar a festa, diz Paula: «Vão todos para a porta da igreja. O S. João, a bandeira, é entregue aos festeiros do próximo ano. As senhoras do adufe cantam e, à noite, já corre tudo por conta dos novos festeiros».
A família da Paula agarrou o S. João por razões de saúde. No concreto, a mãe, Maria Manuela, «muito nervosa, prometeu se o simples tremer das mãos lhe passasse, daria a festa. Isso aconteceu, ela cumpriu».
Em Monforte, nos próximos dez anos, o santo já está agarrado. «Antes, as pessoas que tinham promessa iam para a porta da igreja disputar a bandeira. Mas não era rentável. Uns ficavam com o pau, outros com o pano. Só quem ficava com o bocado de tecido é que dava a festa. Era um prejuízo. Então arranjaram uma listinha, de boca em boca», esclarece Paula.
A confirmar o programa, ao fim da tarde, S. João Baptista — modesta estampa 30x40 cm, afixada ao estandarte — assoma à janela pelas mãos de Maria Manuela, pagadora da promessa. A rua enche-se. As mulheres atacam os adufes, as pandeiretas. E as cantigas.
Surpreendente é o pormenor com que estão regulados, por herança costumeira, todos os passos e preceitos da festa. É o profano a imitar a ritualização do sagrado. As voltas do S. João têm trajectos definidos, há sítios próprios para implantar as fogueiras. E há procedimentos consagrados bem curiosos: a bandeira do S. João não entra, não sai, pela porta da casa do festeiro: só pela janela pode circular; quando o estandarte do S. João anda na rua, nas mãos do Alferes, o sino não pára de tocar; após as voltas, os cavaleiros ungem com vinho a cabeça do burro ou do cavalo; e há formas, fórmulas e nomes específicos para designar a doçaria de S. João: broas, biscoitos, bolo dos santos, borrachão. Todos estes doces têm uma função principal: agraciar quem na terra ajudou os festeiros a suportar despesas e canseiras.
Alguns usos definharam. É o caso da disputa da bandeira no adro da igreja, para agarrar o S. João. «Também havia uma promessa que só uma égua branca podia levar o Alferes e o estandarte. A senhora faleceu, agora vai branca, preta, o que aparecer», assegura Manuel Pinheiro Sanches, Manuel Brasileiro, 65 anos, reformado do Arsenal do Alfeite.
O essencial da festa mantém-se inalterado, embora — lamenta Manuel Pires Freire, presidente da junta de freguesia — «Antigamente isto estava tudo aí cheio de cavalos... cavalos e burros. Ruas cheias. Agora, nem metade. E também dantes havia muito mais fogueiras». Razões? «Isto está desabitado. Tem para aí morrido gente que é o fim do mundo. E quem sabe a tradição são as pessoas antigas, não é a mocidade. Os novos gostam de ver; fazer, não fazem!». Mas, este ano, o Alferes é muito novo e veio de França, contraponho. «Quando falo de mocidade, não é um ou dois».

Galopes de fogo

Bandeira de S. João à janela, dadas as boas-vindas ao santo, a expectativa centra-se na noite, anunciada por esta gente grudada às portas, às esquinas, em grupo. À espera. E por braçadas, montes de palha e rama prontos para a expiação. Tento saber ao certo o itinerário do cortejo. Colho informações desencontradas. Na impossibilidade de desenhar um trajecto preciso, decido-me por procurar um ponto fixo de observação, na esperança de conseguir daí um registo, um fotograma só que seja, para ilustrar o acontecimento — correndo o risco de acabar assado pelas estafermas labaredas que me pintam: imolação sem glória nem eco, mesmo nas crónicas locais.
«Chama grande! O importante é chama grande, fogo rápido, para fazer parar o S. João!», diz o presidente da junta. E, olhos a arder: «Força de quentura! Aqui o que a gente quer é logo força de quentura!». Ademais, fico a saber, «já tem havido anos em que muitos caem das bestas, partem braços e coiso... O animal vai a correr, escorrega, tropeça, cai no fogo».
Versado em fogueiras é também Manuel Brasileiro, grandes olhos por detrás das lentes: «Vai-se ao mato, traz-se giestas, charras, rama de fava, põe-se aqui à laia de uma choça, dois paus, depois tudo em volta... e pega-se fogo». Perspectiva de céu em labaredas, «dantes as fogueiras eram pegadas umas às outras, desde a igreja até aqui», eu sufocado, um bendito hálito repressivo: «Agora é tudo mais oprimido. Temos cá a electricidade». Mas o que tem a ver a electricidade com as fogueiras? «Os fios! Quando cá puseram a electricidade, as pessoas esqueceram-se... e os fios andaram por aí a arder».
Abrasado pelos relatos, monto arraiais num terraço, providencial espaço altaneiro sobre estratégico cruzamento. De repente, já eu em cota alta, à voz «Aí vêm eles!» alguém na estrada ateia fogo a um molho de palha e rama seca. Como pólvora, as labaredas explodem, alterosa «chama grande». Mãos ígneas agarradas aos fios, aos fios da electricidade, o fogo! Estrelinhas e faúlhas a voarem em todas as direcções, eu dentro da «força de quentura», alvoroçado. Baforada benfazeja verga as chamas. Elásticas, lambem o chão, a estrugir. No meio, alguém baldeia água. No frenesim, rente à parede, entre gritos «Viva o S. João!», clamores roucos «Viva a bela sociedade de Monforte!», cavalos à arreata, passa o Alferes, passam os Padrinhos, passam os cavaleiros. Tudo a correr, tudo a galope, sempre a passar. Como um relâmpago!

Então isto é que é saltar a fogueira do S. João?!

Deitado sobre a cama, roupa vestida, fecho os olhos, a flamejar ainda. Porta fechada, o quarto, interior e quente, sugere-me um micro-ondas. Lá fora, rés à fachada, o arraial! Na rua, plena de música, gente a dar ao pé, a beber. Em bando, jovens cortam as voltas a Morfeu, gozam a festa. À rédea solta!

S. João era bom homem
Se não fosse tão velhaco
Foram três moças à fonte
Foram três, vieram quatro.

«Claro que é uma festa religiosa!». Victor Beirão, jovem padre, em Monforte da Beira «vai para cinco anos», não tem dúvida sobre o carácter cristão do evento. Vê, aprecia, acompanha os festejos, em comunhão com o seu rebanho, diverge dos párocos que, noutros tempos, em conflito com o povo, «acharam que isto eram coisas emocionais, sem grande racionalidade, e queriam deixar de rezar missa».
Pessoalmente, diz, valoriza o lado emotivo da vida, distancia-se «de uma geração de padres que deixou de ligar importância aos símbolos e tornou os encontros e as práticas cristãs um bocado maçadoras, só à base de discursos, papelada, burocracia e muita conversa».
Nesta base, defende um sacerdócio próximo das pessoas concretas, «que não sabem fazer discursos, mas falam com o coração e se arrepiam quando passa o Alferes com a bandeira». Se arrepiam e choram, testemunha Paula Carvalho: «Eu vejo a bandeira à janela, fico toda arrepiada. E não consigo parar as lágrimas. Vêm de dentro. Não faço força, é assim uma coisa mais forte do que eu».
Este arrepio sente Joaquim Pires, o festeiro para 2002, chefe de estação da CP, na reforma: «S. João Baptista é milagroso». Emociona-se: «Acredite, S. João Baptista na minha casa fez um grande milagre». Em consequência, ele e a mulher, Maria da Conceição, decidiram levar para a frente «esta festa que condói o coração», festa de pobre, a bem dizer: «Os ricos nunca deram o S. João. Talvez a miséria não cuide tanto a eles», suspeita Joaquim.
Na volta grande da manhã de 24, a bandeira de S. João vai «aos cantinhos todos do povo», ritmo marcado pelo tambor de José Grilo, 39 anos, pedreiro: «Ando à frente da eguada a tocar, para chamar a atenção das pessoas». O cortejo anunciado abre com o Alferes, bandeira ao alto e, vela apagada na mão, os Padrinhos. Segue-se, compacta, a devota coluna de cavalaria. As pessoas assomam às janelas, às varandas, dão sonoros vivas a S. João. Emocionadas. Arrepiadas. Prendem fitas votivas no estandarte, e notas: contos de rei a drapejar.

S. João é meu irmão!

Presenciada a volta da manhã em Monforte, demando o Rosmaninhal. O trajecto cumpre-se numa paisagem sem sobressaltos, planície macia de vegetação rasteira, o mais das vezes. João Pires, o taxista, fala da sua exploração agrícola, que verdeja algures na ponta do dedo a atravessar o pára-brisas, e discorre sobre enigmáticos roubos de fardos de feno nos campos, desaparecimentos sem rasto de cortiça nos sobreiros. No seu caso, até o fumeiro, o aprimorado salpicão que a família guardava na adega, levou sumiço.
A bordejar o asfalto, plantações de tabaco em regime extensivo e, anunciada por um cercado metálico persistente, uma reserva de caça «de um tipo do Norte». Ronda as duas da tarde, chego ao Rosmaninhal.
A esta hora estão os festeiros e convivas no bodo. Na planura do campo da bola, uma edificação de aparência gimnodesportiva, pegada de cernelha por um toldo de malha rala. Sob a luz coada, duas compridas mesas, bancos corridos.
Não são muitos os convivas. Pelos lugares vazios, pela quantidade de comida a sobrar nas panelas bojudas, tripé de ferro, imperativo é concluir que muita gente faltou ao almoço: lamentável desencontro de meios e de repastantes, face à magnificência do ensopado de ovelha, obra poética de um colectivo de cozinheiras, a esturricar ao sol do descampado.
Este ano faltou a banda, na festa do Rosmaninhal, onde — ao contrário de Monforte da Beira — «a música é uma coisa principal». Por isso, a «fraqueza da festa», o decréscimo de adesão, até no bodo. Na explicação do caso, há quem arrisque mais longe: «Isto é uma festa de família, uma festa de promessa. Se a família é mais ou menos abastada, a festa tem mais ou menos força». O S. João, este ano, opinião dominante, «não é como devia; mas fizeram, e isso é bom».
Os próprios festeiros não escondem o constrangimento de as circunstâncias os terem impelido a ir para a frente: «Um familiar nosso agarrou o santo. Chegou a altura da festa, não quis. Ficámos com o povo às costas». Por razões de honra, pai Domingos, filhos João e Luís, todos Correia, já com dois S. Joões no activo, reincidiram.
A promessa antes feita pagava benfeitoria gorda, confessa Luís, 42 anos, o Alferes: «Tinha ataques, ficava como morto no meio do chão. Eram precisas três e quatro pessoas para me segurar. E santo S. João tirou-me a doença toda». Um caso assim fundou laços de sangue: «Santo S. João é meu irmão!».
João, um dos Padrinhos, tractorista, «a máquina é minha», também já resgatara a promessa da perna partida. Elisabete Caldeira, prima de João e de Luís, que na festa faz o papel de segundo Padrinho, está na idade em que nada há para expiar: 14 anos.
Após comerem, Alferes entre Padrinhos, rente às seis, é dada a volta da tarde, cortejo equestre a rondar o povo, a prenunciar as disputas a cavalo, na antiga canada do Espírito Santo. Em boa verdade, esta versão beirã da corrida da argolinha — tirar o galo, aqui se chama — foi a grande razão da minha vinda.
De resto, no plano formal, impera a similitude entre festas, com umas quantas disparidades. Citem-se algumas: «Para o povo do Rosmaninhal a banda é que representa o S. João»; na volta da manhã, hoje depois da missa, «aqui vai padre, vão quatro andores, o santo, e os cavalos do Alferes e dos Padrinhos»; por fim, em Monforte, a tiragem do galo faz-se por corrida, a cavalo ou a pé, disputas de dois, para ver quem primeiro chega à meta.
Serão agora à volta das sete da tarde, no Rosmaninhal. A declinar, o sol deixa em contra-luz os cavaleiros. Partem da zona baixa da rua, cavalos em sonoro galope sobre o empedrado, sempre a subir. O povo cose-se à borda poente da estrada, trepa os muros que limitam os dois lados. Aos 200, 300 metros de desvario, os cavaleiros alçam-se no estribo, vara na mão. Ânsia quase sempre a desmaiar em frustração, ao passar a corda. A corda alta que atravessa a estrada: pendentes duas humildes argolinhas, enlace de ramo de oliveira, boca de dez centímetros, quando muito.
Sobre a corrida da argolinha no Brasil, Luís da Câmara Cascudo diz que o simpático elo, a argolinha, é ali apreciado troféu, oferenda com que os dextros cavaleiros distinguem personalidades, moças, senhoras. Mais garante: no imenso Brasil popular, corre-se argolinha desde o século XVI (Dicionário do Folclore Brasileiro, 1954).
No Rosmaninhal, argolinha resgatada não tem estatuto, não tem poesia. É uma coisa: serve só para tirar o galo. Neste particular, o Brasil nos ganha. E na idade? Em que século, desde quando se persegue argolinha na Beira Baixa? Vale-me anónimo testemunho, na hora da despedida: «Isto tem muito ano. Os S. Joões aqui nunca acabaram!»

Cavalhadas em Português

Cavalhadas são actividades festivas de cavalaria, versão popular das justas e torneios: jogos guerreiros que outrora serviam para a nobreza aprimorar a prática das armas, adestrar capacidades nas montadas, passear vaidades e louros, diante de fermosas donzelas[2].
No século XIX, as Cavalhadas eram também designadas por Torneios à Antiga, Jogo das Justas, Encamizadas de S. João. Realizadas com pompa e cor, incorporavam um vasto programa de actividades: cortezias, corrida da argolinha, encenação das velhas lutas cristãos-mouros, corrida do estafermo, jogo de canas... [3 e 4]
Alusão burlesca às Cavalhadas eram os Cavalinhos Fuscos, espectáculo outrora vulgar nas áreas rurais e que animou a Praça de Évora, «para denegrir a Decencia de huma cidade digna de melhores Cabeças», em 7 de Agosto de 1814: «Vinte e quatro homens de unha negra e enserolada, montados nas ruins Bestas de suas Pessoas, com ancas sobrepostas de mal arranjados trapos, e com pescoços e cabeças de Cavalinhos, amarradas ao baixo ventre, com jaquetas, e xapelinhos muito guarnecidos de ouro-pele, nastros, trançadeiras, penaxos e guizos, fizerão hum arremedo do Jogo das Justas, pela parte do burlesco, e da redicularia.» (Teatro Popular Português, VI, Azinhal Abelho).
Aos nossos dias, e a certos lugares, chega a palavra Cavalhadas, remetendo o conceito para sobrevivências locais de algumas das facetas dos exercícios equestres que incorporavam os Torneios à Antiga, designadamente a corrida da argolinha. Noutros lugares, a palavra adquiriu o nexo lato de acontecimento festivo, cariz profano ou religioso, com algum protagonismo hípico: desfile, procissão, cortejo. Noutros lugares ainda, a designação perdeu-se, mas sobrevivem traços da velha realidade das disputas e dos desfiles de cavalaria.
Nos Açores, ilha de S. Miguel, freguesia de Ribeira Seca, as Cavalhadas de S. Pedro (29 de Junho) são vistosos desfiles de cavaleiros e suas montadas, no pagamento de promessas ou, simplesmente, pelo gosto de participar.
Em Vildemoinhos, Viseu, Cavalhadas são as festas que decorrem durante três dias, por ocasião do S. João, com ponto alto no cortejo de 24 de Junho. O desfile abre com um grupo de seis cavaleiros: dois embandeirados e vestidos a rigor — os mordomos —, quatro vestidos "à povo". A eles hoje se junta um numeroso grupo de cavalaria. O grosso da coluna festiva é, no entanto, constituído por carros alegóricos. E há bandas, fanfarras, ranchos, coches à antiga.
Em Crasto, S. João da Ribeira, é dado o nome de Cavalhada à ida a Ponte de Lima de uma ou duas carroças, puxadas a cavalo, no último dia de feira na vila, antes da realização do "Auto dos Turcos". Em Ponte de Lima, há desfile: dois Soldados, dois Vigias, dois Porta-bandeiras, todos a pé; na carroça, vão os dois Reis (Cristão e Turco). A Cavalhada só se realiza nos anos em que há "Turquia" em Crasto e visa anunciar o evento.
No Rosmaninhal e em Monforte da Beira o termo é popularmente associado aos jogos tradicionais que constam do programa das festas de Agosto (cavaleiros em busca de prémios, partindo bilhas de barro).
Em Cantelães, Vieira do Minho, cavaleiros montados em garranos a galope disputam um cabrito, procurando enfiar uma vara numa pequena argola de ferro (com cerca de quatro centímetros de diâmetro), presa a uma corda. A tal função, que ocorre obrigatoriamente na Festa do Senhor (18 a 20 de Agosto), chama o povo da zona: corrida ao cabrito.
Em Pedroso, Vila Nova de Gaia, no mês de Agosto corre-se a argolinha e há competições hípicas promovidas pela Associação de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida do Norte de Portugal, sede em Serzedo, no quadro das festas de Nossa Senhora da Saúde.
No Bunheiro, Murtosa, distrito de Aveiro, corre-se actualmente a argolinha, mas não a cavalo: de bicicleta! Antigamente – segundo testemunho de António Joaquim Matos, 79 anos, natural da terra e reformado da Marinha Mercante – as disputas faziam-se a cavalo e já também de bicicleta, na rua, em ocasiões festivas. E havia as pateadelas: «andavam ali a correr a cavalo com umas lanças, até cortarem a cabeça dum cabrito pendurado numa corda». Correr a argolinha hoje no Bunheiro, conforme as disputas a que assistimos na Casa-Museu Custódio Prato (Maio de 2003), consiste num jogo em que vários ciclistas tentam, sem pousarem o pé no chão, enfiar um arame com cerca de meio metro, ponta de 2 centímetros dobrada em ângulo recto, numa pequena aliança de plástico. O êxito da tentativa é premiado com uma argola de pão de Valongo.
No Ribatejo, segundo informação da junta de freguesia de Arneiro das Milhariças, aqui e noutras aldeias da zona, «por altura dos festejos do Mártir S. Sebastião, no dia 20 de Janeiro, (...) jogava-se muito o jogo das cavalhadas. E, caracterizando a actividade, que no Arneiro durou até 1933: «Este jogo consistia em se atravessar na grande rua uma corda com argolas, onde se punham bilhas com água, urina, gatos, coelhos, etc». E, adiante, precisa-se que as Cavalhadas se jogavam a cavalo, cavaleiros munidos de «pau ou uma verdasca, para em corrida atirarem às bilhas e às argolas».
No Algarve, José Martins Canário, 78 anos, protagonista em jovem, no Pechão e em Bela Curral, do "Combate dos Mouros e Cristãos", disse-nos em 2002: «Na festa do Pechão, quando eu era moço, havia cavaladas, corridas de cavalos, tirada de frangos com cavalos. Era à tarde, no Verão, na propriedade, tudo seco... Atravessava-se uma corda e punham lá... sei que aquilo tinha uma argola qualquer e eles levavam um pauzinho na mão, tentando enfiar. Quem conseguisse, tirava o prémio. Não sei se tinham os frangos mesmo pendurados, já não me recordo. Chamavam a isto a tirada de frangos».
Também chegaram a Cabo Verde, e aí sobrevivem, as Cavalhadas. Nas festas de S. Filipe, Ilha do Fogo, Cabo Verde, realizadas anualmente entre 26 de Abril e 1 de Maio, os cavalos são presença apreciada, indispensável: participam na procissão religiosa (cavaleiros embandeirados, camisa branca, calça preta), há corridas junto ao aeroporto, torneios e brincadeiras hípicas no Largo de S. Pedro, a 1 de Maio (sacos de terra, cinza, rebuçados). Há argolinha: «É posta numa corda, entre dois postes aqui no largo. Os cavaleiros vêm a correr, começamos daqui, eu sou um deles também, apanham a argolinha com a ponta de uma vara e levam-na. A argolinha começa com um diâmetro de mais ou menos 10 centímetros e depois metem uma grande, que os cavaleiros apanham com a cabeça» – confia-nos em Setembro de 2005, no Fogo, Carlos Alberto Monteiro, cavaleiro e entusiasta da festa.
Ao Brasil, a partir do século XVI-XVII, e saídas de Portugal, arribam as Cavalhadas: justas e torneios, corrida da argolinha, luta encenada dos Doze Pares de França contra os Doze da mouraria... Este corpo cultural disseminou-se no vasto território brasileiro, incorporou o imaginário popular, ganhou estatuto de folgança, assumindo hoje – com caldeamentos vários – matizes regionais diversificados.
Em Pirenópolis, Goiás, as Cavalhadas são o apogeu da festa do Divino Espírito Santo. Durante três dias, batalham cavaleiros mouros e cristãos, 12 de cada lado. Na corrida da argolinha se centra também muita da animação da festa, com os cavaleiros em disputas de destreza e a oferecerem cada argola resgatada às entidades presentes.
Ainda em Goiás, estes festejos animam Jaraguá, Santa Cruz de Goiás, São Francisco, Corumbá, Palmeiras... Mas, representadas em diferentes ocasiões e em muitos Estados, no imenso Brasil popular, as Cavalhadas pulsam desde tempos antigos. No Nordeste, delas só consta a corrida da argolinha. Outras têm cariz de cortejo, com propósitos religiosos. E há as que integram um príncipe e a filha de um rei turco, princesa donzela: Floripes, a quem outros chamam Floripa.

Notas

[1] Esta reportagem refere-se aos festejos em honra de S. João Baptista, no Rosmaninhal e Monforte da Beira, Junho de 2001. O apêndice "Cavalhadas em Português" complementa a reportagem. Estes dois textos foram publicados em “Praça Velha - Revista Cultural da Cidade da Guarda”, ano IX, n.º 19, Junho 2006, págs 259 a 269.

(2) Sobre as Cavalhadas e sua génese entre nós, escreve Guilherme Felgueiras: «As justas e os torneios, precedidos com frequência de representações mímicas e bailados, vão criando adeptos entre os nobres e cortesãos que, divertidamente, se adestram com tais jogos bélicos ou de destreza, em simulados campos de liça. Imitando até certo modo os torneios, surgiram mais tarde as canas, que, por sedimento, derivaram nas cavalhadas de nossos dias, renhidas folganças populares em uso ainda nas terreolas provincianas. Os lidadores – substituídos os ginetes pelos orelhudos jericos e munidos de canas ou de varas – pleiteam prémios suspensos duma corda, no geral um esporado sultão das «capoeiras» – "Teatro", págs. 282 e 324 (corrigenda), in "A Arte Popular em Portugal", 2.º vol., Editorial Verbo, s/ data, direcção de C. Pires de Lima.

[3] Ainda sobre as Cavalhadas, ver "Evora — Jocoza e Circunspecta, Conçorcio do Burlesco e da Decencia ou Narração Historica, Politica, e Diplomatica das Festas de Evora na Paz Geral de 1814 Desde 29 de Julho até 15 d'Agosto Offerecida (...) por hum filho de S. Francisco 1814", in Azinhal Abelho, "Teatro Popular Português", VI, págs. 29 a 41: «Este antigo, e nobre exercício dos bons Cavaleiros Portugueses, que tantos malles trazia consigo, em consequência do dispotismo, da altivez, e do desenfreamento, que os Cavaleiros professavão, desde que se comutavão em agressores, e em bandoleiros; foi nas Espanhas, e na Lusitania que teve o maior auge e o maior esplendor. (...) Temos bem fundadas razoens para acreditar que Evora sempre famoza por suas remotíssimas antiguidades, teria sido o mais brilhante Campo dessas memoráveis antigas justas (...), aonde ainda hoje se conserva, como em nenhuma outra parte, o nobre, o antigo jogo das Justas ou Cavalhadas. São os Lavradores do termo de Evora quem conserva este respeitável resto dos costumes e prendas de seos nobres ascendentes, que de huns a outros passa como herança (...). Eles tem por hum dever de sua antiga nobreza o virem jogar as armas na grande Praça da Cidade de Evora sempre que nela se celebrão Festas públicas, e o fazem pela maneira seguinte – Vinte e quatro Lavradores os mais destros na arte de jogar as Justas montados nas suas melhores Egoas, acompanhados de seus pagens, que levão à déstra outras tantas, e também ajaezadas para se melhorarem quando he preciso, apprezentão se na Praça em duas alas, formando pares de dois em dois, que vem a ser reciprocamente competidores hum do outro. O uniforme dos Cavaleiros, e das armas he em tudo perfeitamente igual, excepto nas cores, que são sempre opostas. Todos vestem calça branca, mas as jaquetas de huns são encarnadas guarnecidas de amarelo, e as dos outros são azuis, bordadas de branco; com a mesma alternativa de cores são as Lanças e os Cocares da Cabeça».

[4] Pelo interesse documental, pela dinâmica narrativa, na sequência da nota anterior e com base na fonte aí citada, transcreve-se mais esta referência ao Jogo das Justas, em Évora, na tarde de 2 de Agosto de 1814: «Postados na Praça em linha de Batalha, ficando à direita os de huma cor, e à esquerda os de outra, elles empunhão as espadas; e sahindo os dois pelo centro, vão formando duas alas alternadas; e a galope solto xegão em frente do Senado, a que fazem as continências; e desdobrando com uma veloz paçagem de mam, sem jamais afrouxarem de galope, voltão, por hum composto de duas paralelas, ao seu primitivo posto, donde tornão a sahir, umas vezes pelo centro, e outras pelos flancos, sem perderem a ordem nem os seus respectivos competidores. Nestas marxas e contra marxas, umas vezes a galope e outras a meja brida, outras a toda a brida, formão circulos, abrem seguementos, descrevem deagonaes, torcem, e destorcem oitos de conta, pação de mão pela direita, e pela esquerda com indizivel velocidade e firmeza. Vibrão as lanças, manejão as Espadas, correm as canas, trespação as argolinhas, cobrem-se dos tiros com os escudos, trespação as aves à ponta de lança e acometem o Estafermo, com hum impetu, huma firmeza, e uma velocidade tal, que não pode descreverse, nem facilmente limitarse, sem que jamais aconteça perderem a ordem, nem diminuirem a galhardia, a beleza e a rapidez».
Augusto Baptista in Cena Lusófona http://wwwcenalusofona.pt/paginas/06edicoes/02edicoes.html

Dos pássaros

Onde, os pássaros? Em que lugar se acolhem, se guardam, os pássaros aqui? Onde, que ninguém os vê, os ouve, lhes pressente os ninhos? O voo. Para onde fugiram? Quem os matou?

Foi ontem, foi ontem talvez, ainda ontem viam-se verdilhões, bando grosso a afogar de supetão os quintais. Os verdilhões ao assalto! A rirem-se dos espantalhos. A rirem-se de nós. E as abetoninhas, aves peregrinas, no Inverno a pintarem de branco os campos, penacho a despontar na erva. Petos reais, gaios. Tordos.

Os tordos! Os tordos em bando tapavam o Sol. Ao entardecer irrompiam em nuvens irrequietas, em redemoinho, em furacão. Tempestade de asas no céu, tormenta a anunciar o bom tempo.

Os melros, metálica plumagem negra, incendiado bico amarelo, estremunhavam os silvados. Havia pintassilgos, pintarroxos, carriças, irrequieto saltito no medronheiro. Havia corvos, poupas, galinholas, pegas. Canto de rouxinol. Havia piscos.

E os pardais?! Onde se escondem os pardais que iluminavam as tílias no jardim?

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vinte rostos dois mil anos

Câmara sensível
Abracei o tema sem particulares expectativas ou sobressaltos. Mas, à medida em que fui avançando, percebi que estes eram retratos impregnados de um toque sensitivo muito particular. E, mesmo agora, olhando as imagens impressas em papel, não consigo de todo descortinar a razão deste trabalho se ter tornado tão inquietante e impressivo. Tão pessoal.
É certo que, face à objectiva, se perfilaram homens, mulheres, gente em relação a quem é difícil ser frio. A idade enternece. Mas retratar, acto de afecto, é sempre sentir o outro lado. É viagem além da pela para, brandamente, surpreender a luz interior. Improvável predação talvez, mas que dá ao mister a aura conveniente.
Fotografei no meu jeito habitual. Depois as imagens, estas imagens, perduraram mais do que seria razoável. Ficaram, por estranho mecanismo, impressas no íntimo. Como se eu me abrisse a um raio imperceptível. A um fluxo material que, fundo, atingisse o pensamento. E aí se abrigasse.
Fecho os olhos e revejo todos os retratados. Com nitidez. Como quem mergulha num álbum. Decifro-lhes as feições, percorro-lhes as rugas. Enxergo o luto que lhes veste o corpo, pesado. Sinto-lhes a exaltação da primeira hora. Talvez contagiados pela satisfação da família por, finalmente, alguém da casa ter honras de posteridade.
Neste misterioso flashback, revivo tudo como de facto aconteceu. Recrio sem esforço o frente a frente. Eu, contenção de gestos, de palavras, a calcular o espaço, o enquadramento, a medir a luz. A pensar e a agir rápido. Eles conformados, quietos. Tão assim que até parece nunca terem saído do lugar em que estão, a vida toda ancorada ali. À espera. E, entretanto, alguns encharcaram-se de medos nas trincheiras da guerra. Outros vagamundearam por mares de calema, dias bravos. Só tarde regressaram. Cansados.
Alheios ao desassossego que reina em volta, pose solene ou a fazerem-se desentendidos, olham-me, indulgentes. Vagos. Como se vissem para além de mim. Como se eu, tudo à volta, fosse transparência. Espaço aberto, horizonte.
Vejo-lhes o rosto. Mãos de vidro pousadas no colo. Frágeis. Tão frágeis. Os olhos a sumirem-se nas órbitas. E a brilharem, no fundo, nem alegres nem tristes. Resignados. E com uma tal inocência que o passar dos anos dir-se-ia lhes haver restituído a candura original. Para sempre.
Por detrás da câmara, pela última vez, analiso-os de alto a baixo. Um a um. Atento aos pormenores, ao detalhe derradeiro.
Avalio-lhes a postura. Fixo-lhes a expressão. Eles imóveis - um sério fingimento de eternidade.
Sinto que vou fotografar a ausência. Um outro tempo. E comovo-me, clic!




Fotografia e texto: Augusto Baptista, in 20rostos2000anos.canalblog.com/

terça-feira, 4 de maio de 2010

Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos


Desenhos: Augusto Baptista


Abelharuco
Pássaro que come abelhas. Se comesse melgas, seria um melgaruco; moscas, um moscaruco; borboletas, um borboletaruco; cigarras, um cigarraruco; joaninhas, um joaninharuco; homens, um morticínio. De pássaros.

Almas penadas
Quando são amarelas e cantam chamam-se canários.

Ambidextro
Significa destreza à direita e à esquerda: homem hábil com as duas mãos; touro que marra exacto com qualquer dos cornos; muar rigoroso a escoucinhar com ambas as patas; jacaré que abocanha com igual desembaraço para os dois lados.

Barata
Animália dispendiosa: consome imenso insecticida.

Cachorro
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.

Can-can-can-canguru
Difícil de pronunciar, por causa dos saltos.

Corvo
Um bico crocitante com a ave a espreitar atrás.

Dançarino
Gato a evoluir à roda das pernas da dona na volúpia do prato de carapau, a evoluir à roda na volúpia do prato de carapau, a evoluir à roda na volúpia do carapau, a evoluir à roda na volúpia, à roda na volúpia, à roda, à roda, gato a evoluir à roda do prato de carapau na volúpia das pernas da dona.


Darwin
O senhor que encontrou os nossos pais.

Dúvida
O que terá aparecido primeiro: o anzol ou o peixe grelhado?

Eclipse total do Sol
Coice de mula ao meio-dia.

Enxada
Apetrecho que a deontologia interdita na caça ao grilo.

Esclarecimento
A galinha apareceu antes, muito antes, do ovo estrelado.

Espada
Se espada é peixe, canivete é passarinho?

Fera
Marido à porta da cabeleireira, à espera.

Frango de churrasco
Um peito aberto.

Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.

Gato
Uma intriga com bigodes.

Homem
Animal muito comum que, ensinado, imita a fala do papagaio.

Indolência
AA pprreegguuiiççaa aa ttrreeppaarr àà áárrvvoorree.




Jamanta
Ilusionista subaquática que veste capote de manga larga.

K.O.
O estado do cowboy quando, após a queda, a cavalgadura lhe assesta dois imperativos coices.

Leitão
Porquinho de tenra idade; porco tem uma idade mais rija.

Mês
Mosquito, Mosca, Moscardo: os três piores mês do ano.



Núpcias
Palavra nocturna com dupla personalidade.

Ootoco
Oootoco é um bicho que põe ovos; se pusesse tocos era um ooovo, logicamente.

Ouriço
Organismo organizado em o, onde até os olhos tem picos.

Peixe-lua
Em quarto minguante, é só espinha.


Quebranto
O torpor do Lobo Mau depois de engolir a avozinha.

Ri
Ri de quê, o noceronte?

Santola
Marisco reconhecidamente com bom feitio.

Tucano
Um arco-íris a trepar o jacarandá.

Urso
Considerada a corpulência, a boca até não é exagerada.

Vaca-leiteira
Dá o peito aos filhos, na barriga.

Xilofone
Marimba de teclas de madeira que as aves tocam dentro do bico, com dois pauzinhos.

Zona zebrada
Equídeo espalmado na estrada, para travessias.


Texto e desenhos in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Augusto Baptista, Gatopardo, 2004

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O homem que entende as árvores

As árvores são ervas que entroncaram, com o tempo. O processo fez-se devagar, por muitos e desencontrados caminhos. Umas a viajar rente às praias, outras a palmilhar chãos agrestes, trilhos de meter medo, solidões. Outras a vaguear perdidas no lume do deserto.

Prisioneiras, pés enterrados, nesta obstinação peregrina deram a volta ao mundo. Mergulharam nos fundos marinhos e aí, despenteadas, dançam entre brisas e correntes. Conquistaram jardins, praças, o centro das cidades. Voando, arribaram a remotos paradeiros: Via Láctea e, talvez, mais longe.

Estas viagens modelaram criaturas bem diferentes. Algumas perfumaram-se, outras esmeraram-se mais no bojo, mais na seiva, no ornato, nos usos medicinais, no aconchego dos ninhos, na doçura dos frutos.

Propensas para as artes, algumas cuidam da harmonia dos veios, do colorido da tez, da macieza do toque, a pensar na talha fina, nos torneados das mesas, no aprumo das cadeiras. Na pele da estatuária. Na ternura dos berços. Outras dão-se à palavra, feitas cartas, livros. Muitas medram cingidas por paixões de namorados, barco a remos a pairar no lago. Outras se fizeram caravela e partiram.

Há árvores que aprimoraram as folhas para tisanas, xaropes, vapores, inalações. As que desvairaram em tamanho, se espraiam em sombra mansa, por quilómetros, o calor a uivar à volta. Grossa copa, muitas se enfeitam de florinha minúscula, cor-de-rosa, branca, azul. Enquanto, débeis, dobradas, miudinhas, algumas penam a amamentar ao colo os filhos, frutos pesados, casca fina.

E há-de-lhes doer – como suspeitou Raul Brandão – há-de-lhes doer brotar, ousar flor, rebentação!

Dor maior lhes causará a indiferença, o mau-olhado, a agressão. A lâmina. Elas a tremer na aragem. Elas sem terem tempo de fugir.

O homem que assim falou rasga a terra, decidido. Uma a uma, com árvores tinge a manhã.


In "o homem que", Augusto Baptista, gatopardo 2008


Humor ao alto XI

sábado, 1 de maio de 2010

Antônio Vieira - cordel novo


Antônio Vieira usa chapéu: na cabeça e no nome. O circunflexo é coisa de registo; o adereço capital é opção de artista, marca de criador de cordel de tipo novo — remoçado, diz —, que propõe pensar lógico, transformar.

Mordeu a pedra. À volta, todos, que poucos eram, suspensos no alvitre.
Ouro! — assegurou Pedrão, garimpeiro velho. E no lugar donde esta veio, tem muitas! Logo abraços, implosão de alegria, júbilo amordaçado: para não despertar suspeita.
Um caso nascido de acasos. Primeiro a ida da pequena equipa de topografia para o
cu de Judas, demarcar terrenos. Depois o mergulho à tardinha do agrimensor no rio, a pepita no fundo. A reluzir. Ouro! E no lugar donde esta veio, tem muitas!
Valeu a pena demandar Araguaína, contactar Pedrão, logo logo companheiro de agrimensores rendidos ao garimpo, ouro fácil, à superfície. Missão a
enricar, no rio não tardou a companhia do dono da fazenda, dos donos das fazendas. E outros. Muitos. Mais, mais. Vindos cada vez de mais longe.
Nascia o garimpo na Serra Pelada!
Antônio Vieira conhece em detalhe a febre do ouro que fez arder o Brasil na década de 80: jornalistas, médicos, intelectuais, vaqueiros, burocratas, operários, deserdados, marginais, caldo humano a borbulhar na cratera, goelas esgalgadas a engolir a turba. Fez cordel:

Os barrancos desabavam
Só via gente morrendo
Ou ficavam soterrados
Ou escapavam
fedendo
Alguns ficavam pra sempre
Traumatizados, doentes
Do garimpo maldizendo.

Aprendeu casos de gente que bamburrava eufórica, atraindo pistolagem. Soube de muito garimpeiro morto, por não vender pepita ao governo. Apurou números: «A produção acumulada de Serra Pelada até Setembro de 1984 foi da ordem de trinta e três toneladas de ouro.» Catou e guardou histórias, sem cair na tentação do garimpo: «O meu ouro era outro».

Várias classes de pessoas
O garimpo faz nascer
Prostitutas, pistoleiros
Quem rouba para viver
Garimpeiro bamburrava
O ladrão o tocaiava
Só sorte para não morrer!

No garimpo, a crueldade
É coisa de assustar
Não se tem dó de ninguém
Não adianta gritar
Triste de quem adoece
Se for pra morrer falece
Só Deus lhe pode salvar.

Me coma!
Antônio Vieira nasce na heróica e benemérita cidade de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia, em 1949. Filho mais velho de uma prole de seis, cedo histórias, casos, dramas, lhe preenchem a vida.
Desde menino, na venda do pai, escuta narrativas. Conhece Ferrabrás, irmão de Floripes e filho de Balaão, pela voz de Donata, «uma senhora contadeira de histórias, branca, cabelo comprido, tipo uma portuguesa, magrinha». Terça armas ao lado de Oliveiros e Roldão, às ordens de Carlos Magno. Se arrepia com «caso de bichos, histórias mal assombradas, fantasmas e reis».
Na escola, «todo o mundo contava coisas, como prática normal, recreativa. Histórias decoradas, de lobisomem e tal, às vezes em verso». Entre o jantar e a deita, «era jogar pião, fabricar carrinho, correr picula, que é o procura-procura», jogo das escondidas, como em Portugal se diz.
Crescendo, aos 13 anos aprende violão. E histórias da História. Pasma com as pregações de António Conselheiro em 1889, «o Bom Jesus prometendo montanhas de cuscus e rios de leite para todos». Um caso que poucos conhecem, lamenta: «Conselheiro e a sua gente se instalaram numa fazenda abandonada na região que hoje se chama Monte Santo, fundaram a povoação de Canudos. Os fazendeiros, sem mão-de-obra, pressionaram as autoridades para acabar com aquilo». Os ataques foram todos repelidos. «Até que, após três anos de guerra, o Ministro do Exército à frente das tropas arrasou Canudos — 20 mil mortos: homens, mulheres e crianças».
Na vida, aprende Feliça, «a prostituta que ensinou uma geração inteira»:

O rapaz vinha de longe
Para comer a negona
Um saía outro entrava
Ela deitada, abertona
Os meninos de família
Na porta, faziam fila
E ela dizendo: — Me coma!

Não era de meretrício
Morava numa casinha
Atrás de uma avenida
Porta de frente pra linha
Tinha o olhar meloso
Um trejeito apetitoso
Era do tipo galinha

Repara em Popó do Maculelê «guiando trole puxado a burro, que trazia as bagagens dos passageiros do cais do porto (no Conde) para o centro da cidade». Retém os ecos da fantástica epopeia do capoeirista Besouro, morto mas nunca vencido, «nome manchado proposital e preconceituosamente pela tarja da marginalidade».
Atreve-se nas primeiras quadras, caligrafia indecisa em papel de embrulho, relato do caso de um enfermeiro, que — diariamente e por mais dum ano — vê correr para aplicar injecção numa moça, «doente com uma gripe, muito bonita». Ufano, mostra a criação aos catraios mais velhos: «Incinere isso, rapaz! Você é maluco?!».
Se Antônio tendia para a malandragem nas letras, também Santo Amaro fervia de samango, mariola «a emprenhar vizinha». E outros casos. Conta que na cidade havia (e há) duas bandas de música, rivais: a Lira (uniforme cinza e vermelho) e a Apolo (uniforme caqui — verde claro — e vermelho). «Pois uma vez, preso um sujeito sem qualquer razão, o delegado queria dar surra nele. À falta de motivação lembrou-se das bandas»:
— Me diga, você torce por qual banda?
— Doutor, eu gosto das duas.
— Um homem tem de se decidir!
— Gosto da Lira...
— Tragam o chicote cinza! — ordenou o delegado. «E meteram o chicote cinza no meio da sova».
— Doutor, eu torço por Apolo!
— Tragam o chicote caqui!
— Eu torço pelas duas, doutor!
— Juntem os dois!
Caso verídico? «Eu já peguei o bonde andando» — assegura. «Isto foi-me contado pela minha família». O real e a ficção: dois chicotes. Neste entrosado, António se fez homem, temperou ideias, descobriu o lado que lhe estava reservado na barricada social.

Semear consciência
Um dia, a vida empurra-o para fora de Santo Amaro, joga-o para o imenso Brasil. Anos de andanças, mais de vinte: Feira de Santana, Goiás, Brazília, Imperatriz do Maranhão... E, enfim, regresso recente a chão baiano: Salvador.
Nesta peregrinação, estuda, serve o exército, tira curso técnico de agro-pecuária, constitui família. Nos quadros do Ministério da Agricultura, entre outros afazeres, «acompanhou o assentamento de populações nas zonas rurais». Explica: No tempo do governo militar, houve uma reforma agrária, «de cima para baixo, de Brazília para o campo». Foram distribuídas terras, «fazendeiros, os antigos posseiros, a disputarem solo fértil, nas margens dos rios; nos outros lugares ficava gente sem terra, vinda da cidade».
António integrava uma equipa técnica «de vistoria e preenchimento de laudos das propriedades, que acompanhava a subdivisão da terra e o assentamento das pessoas». O epicentro do sismo! «Nesse processo se geram corrupções, invasões, pistolagem, um camarada ocupa uma terra, tem direito à vizinha, aí manda assassinar o cidadão para poder...». A selva! Também geografia privilegiada para caçar histórias, coleccionar casos, conhecer os homens, a sociedade: «A história dos menos favorecidos sempre me chamou a atenção. Sempre quis compreender o porquê das diferenças sociais».
A terra e o gado, a causa agrícola, abrem-lhe horizontes, mostram-lhe o Brasil social, visto de baixo. Desvendam-lhe espaços. Extasia diante de Alto Paraíso, «uma das regiões mais lindas do mundo». Conhece Pedro Afonso, cidade entre os rios Sono e Tocantins, a sua fauna: «Dá peixe de 100 quilos, o filhote, por exemplo, peixe de couro». Ronda Serra Pelada, o garimpo. Trabalha na Transamazónica «estrada que pega de Brazília, em Goiás, atravessa Tocantins, Pará, Amazonas».
Por onde passa, aprende: «Enquanto os outros iam para um simples serviço, eu fazia pesquisa sócio-económica por minha conta. Fui anotando, ouvindo termos, conceitos, sacando comportamentos». Contacta populações índias, interpela gente andarilha em busca de uma vida melhor.
«Autómato no emprego, autónomo na parte literária», ganha lastro cultural, colhe experiência humana. E decide semear consciência. Opta pelo cordel: «Por ser veículo ideal para transmitir mensagens, popularizar a cultura, deselitizar o saber». Denunciar: «No Maranhão, o minério de ferro passa em composições quilométricas puxadas por um trem e o povo não sabe a origem nem o destino daquilo. Fica tipo espectador de quadra de ténis. O interesse da minha literatura é difundir informações, ainda que diluídas em água com açucar, só a manchete, mas que o povo saiba que o minério está a ser tirado de Carajás, um dos grandes celeiros de ferro do mundo, para o Japão. Se alguém quiser saber mais, que vá buscar».
Demora-se em referências à incontornável superficialidade do cordel, embora momento de possíveis indagações ulteriores: «O que escrevo no cordel é uma sinalização para o aprofundamento. Quem quiser permanecer só no conhecimento do cordel, tem um princípio necessário para o consumo. Aquele que quiser aprofundar — a posição social dos protagonistas, o ambiente... — pode fazê-lo».
No cordel "Se a ferrovia traz progresso, porquê o trem parou?" freme a indignação: «Nós temos 20 mil quilómetros de estrada de ferro e de repente sucatearam, arruinaram estações, arrancaram os trilhos em algumas cidades, fizeram avenidas. Porquê, se estão fazendo o metro em Salvador?». Logo a resposta: «O comboio foi desmantelado prepositadamente em função da Shell, em função dos Bush da vida. E o Brasil aceitou isso».

O cordel ao poder!
Outras vocações atribui Antônio ao cordel. Ao seu cordel. Rodeia o assunto, dá voltas, conta a história do cientista que chamou um barqueiro para atravessar um rio. Na viagem, para avaliar o grau de conhecimentos do remador, o cientista multiplicou-se em perguntas: Sabe Matemática? Biologia? Astrofísica? Termodinânima?
A cada pergunta, ouviu um não de resposta. Para cada não, o sábio judiciava:
— Pois é, perdeu um percentual importante da sua vida.
Às tantas, arma-se uma tempestade, o barqueiro inquire:
— Sabe nadar, doutor? Não! Então, vai perder a vida toda já!
«Nessa hora — adianta Antônio — não interessa o nome da capital da Hungria, ou da Rússia. O importante é saber nadar!». Remata: «Com o cordel o que queremos é mostrar esta realidade e ensinar a nadar, a raciocinar. Propor cidadania, integrar. Daí a razão do cordel remoçado. O cordel tradicional ele é lúdico, engraçado, mas neste ponto é inóquo. Não influi nem contribui. Nas entrelinhas de nossos versos, a gente coloca essa questão da necessidade de pensar. Pensar lógico».
Desempenho que atribui ao cordel é também salvar do esquecimento «os momentos, gestos, os mil modos como o povo, as populações e seus heróis intervieram no curso dos acontecimentos e na formação do Brasil». A propósito assinala que, na História oficial, os protagonistas, os agentes das transformações são os generais. E o povo? «Um general não ganha uma guerra sozinho. Também, paralelamente às macro-acções, uma multidão de actos influencia sobremaneira o processo». Daí a urgência, através do cordel, «de cantar o povo e a actuação popular, repor verdade na avaliação histórica».
A par da exaltação do herói colectivo, «função do poeta é o resgate, o evidenciamento de certas acções e indivíduos, como Besouro de Santo Amaro, que reagiu com pernada, valentia, à proibição oficial de jogar capoeira. E lembrar grandes nomes, exemplos que o povo precisa conhecer. Multiplicar os Albert Schweitzer da vida, as Madres Terezas de Calcutá».
Perante tanta tarefa, tanta necessidade de multiplicação, de milagre, tempero, apetece perguntar, sem lirismo, o que pode a Donata, o Popó do Maculelê, a Feliça, Lâmpião, Besouro, o que podem eles juntos na inversão do curso das coisas, agregar, humanizar? O que pode o cordel na transformação do mundo?
«Veja bem» — diz-me Antônio, no seu jeito pausado e sereno de contar história. «Veja bem, neste caso, o cordel seria aquele passarinho que estava com o bico pegando água para apagar o incêndio. E os outros animais da floresta lhe disseram:
Então você quer apagar o fogo assim?! E o passarinho, sem interromper o trabalho: Estou fazendo a minha parte!»

1 In cenaberta n.º 3, Dezembro 2004, texto de Augusto Baptista

Antônio Vieira – breve perfil
Nasceu na cidade baiana de Santo Amaro, banhada pelos rios Subaé e Sergi-Mirim, em 1949. Depois:

Viajou pelo Brasil
Investigou um bocado
Escreve em seus cordéis
Imagens que lhe marcaram
Resgates e personagens
Anónimos e consagrados

Ainda nas suas palavras, “conta histórias populares inéditas e recita seus cordéis, com ritmos de música popular brasileira, um dos detalhes de seu cordel remoçado, proposta de diversão, informação, popularização de conhecimentos e humanização de pessoas”. Publicou mais de 100 brochuras, editou duas colectâneas (Histórias que o Povo Conta, I e II), gravou o CD O Cordel Remoçado.
A Cena Lusófona e a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto co-editaram em 2004 (separata do jornal cenaberta n.º 3) o cordel Popó do Maculelé.