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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Dos grilos 3

À Mariana

A caça ao grilo é uma especialidade venatória, um tipo de caça grossa, a seu modo. Exige perícia, adestramento. Muita sensibilidade, delicadeza. E longo trabalho de campo. Tal como para fera de África, esta valência cinegética dispensa licença, ao contrário da banal caça à perdiz, ao coelho, ou da pesca à linha.

A abordagem da peça faz-se ouvindo, com ventos contrários, pés a levitar. A acção decorre no tempo quente, que, no frio, enrouquecidos, os grilos migram para o ventre terrestre, em busca do calor do magna. E ressuscitam na época canora.

Misteriosamente.

O canto é a suprema qualidade do espécime. Na Natureza abundam outros cantores: ralos, cigarras, camponeses na ceifa. E, modalidade luminosa, os pirilampos. Os grilos canoros têm dois rabos; com três tornam-se ensimesmados, melancólicos, não cantam: chamam-lhes grilas. Também pútegas e outras aleivosias. Quando albinos, dizem-nos grilos brasileiros. Todas estas espécies escavam entre a erva uma toca, bastante redonda, de pequeno calibre.

Para o exercício cinegético, utiliza-se uma haste vegetal, que, depenada das derivações, se transforma na arma poética usada pelo caçador à porta da lura, cócegas delicadas, tal qual mãos apaixonadas no ouvido da namorada. Até ao êxito ou fracasso da abordagem. Como no amor.

Desafio de monta para qualquer um, aos sete anos. Às vezes menos.

Augusto Baptista, in reporter.canalblog.com/

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dos grilos 2

Deslurado, por acção do caçador, o músico emerge no terreiro. Tal-qualmente negra besta a irromper dos curros, vai deter-se no redondel, hastes perscrutadoras. Por desconforto ou apreensão, um frémito de crença natural impelirá o touro para o aconchego do curral, o colo da mãe, a bem dizer. Também o grilo apontará as armações para o oco do lar. Investirá, impetuoso, e, num ápice, irá mergulhar de cabeça na escuridão. Se nada o obstar.
Este saber, apreendido desde o homem das cavernas na predação canora, é crucial para o êxito da caçada. Cabe agora ao predador, elucidado, num oportuno e preciso golpe-de-mão, desembaraçar-se da poética arma vegetal – a palheirinha – e, indicador tenso, passar à prosa: travar a fuga, obstruir por acção da falangeta o acesso ao sombrio escape. Com a mesmíssima prosaica fulminância, a presa confirmará o antevisto recolhimento.
Na hipótese de o caçador ter alcançado primeiramente o habitáculo, este cerrado, o grilo frustrará intentos furtivos. Acto contínuo, a mão oclusiva liberta a falangeta e, num justo abre-fecha palmar, engole a presa. Tudo rápido, à guisa de vermelhinha. E sem molestar o músico, como a deontologia obriga.
Grilo na mão, é chegado o momento crucial: a prova.
A raivosa fera, que em tal se transformam pacíficos prisioneiros, usará derradeira arma, demolidor argumento no calor da luta. Com o vigor de suas descomunais mandíbulas desfere metálico golpe no fortim palmar. Dolorosa punhalada na pele, na carne, na tenra mão! Como na vida, em outros episódios, o desfecho da história vai depender da têmpera do pequeno caçador.
Augusto Baptista in reporter.canalblog.com/






quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dos grilos 1

A caça ao grilo sempre foi ali uma cerimónia com a liturgia do silêncio, um ritual mudo. Noutros lugares, o acto é sonoro, mais profano, com os meninos autorizados, pelo grilo, a emitir cantorias na veação.

Há-as funestas:


Grilinho sai, sai

Que mataram o teu pai.


Há-as de poética melopeia:


Grilinho à porta

Que andam as cabrinhas na horta.


Há-as de matiz popular:


Grilo, grileiro

Está à porta o João gaiteiro.


Pelo rigor dos versos responde o Professor Carlos Teixeira em “Superstições da Terra de Rossas”, estudo publicado em 1934 e que a junta da freguesia berço do erudito investigador e geólogo reeditou em 1996, com Limiar e poético Prefácio. O mesmo rigor, seguramente, com que Carlos Teixeira e Torre Assunção estudaram – na aldeia da Castanheira, chão de Arouca – outros seres fantásticos aparentadas aos grilos: as pedras parideiras, criaturas que – como é sabido – o povo ouve cantar, doloridamente, nas noites de parto.

Voltemos aos grilos.

O silêncio ou o palavreado, aquando da captura, modelam o sentimento, o timbre das cordas vocais, por assim dizer, dos artistas. Deste modo, há-os mais melodiosos, mais calados, mais tendenciosos para a ópera, mais para o fado. E, entre os fadistas, toda a gente sabe, há dos que lhes tomba a asa para Lisboa, para Coimbra. Como os grilos, exactamente.

Influência na canção, diz-se, terá também o regime alimentar. Há primorosos trovadores com serradela ou alface tenra e um torrão de açúcar. Amarelo. Outros lhes basta sorver o hálito do Verão. Nas asas.


Augusto Baptista