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quarta-feira, 6 de abril de 2016

A noite das facas longas
Abre o bilhete, dobrado em quatro, que ele lhe deixou sobre a mesa. Lê, dissimuladamente:

Espero-a esta noite. A porta da rua fica encostada. Seja cuidadosa, que ninguém a veja entrar. Eu próprio tratarei da ceia. Uma receita da minha falecida avó: carne esfaqueada em tiras, chouriço de sangue golpeado, uma cabeça de alho esmagada, batata a murro. E prometo-lhe sangria, à luz de velas.

Volta a dobrar o bilhete em quatro. Com a ponta e mola corta o papel aos bocadinhos, corta o papel aos bocadinhos, corta o papel aos bocadinhos, e decide arriscar.
ab

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Homem que caçou a deusa

Levou a arma à cara. Cano virado para o céu, um tiro. A criatura, cega ao rumo que levava, caiu.
— Busca, Flecha! — ordenou o caçador.
A perdigueira, a abanar o rabo, fez-se ao monte. Breve regresso: na boca, Diana, morna ainda.
In O homem que, pág. 30, Augusto Baptista

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias

Ana acorda. Abre um livro à toa, lê:

E, no livro: “Ana acorda. Abre um livro à toa, lê: ”

– Estranho, pareço eu – balbucia Ana.

E, de novo no livro, como num jogo de espelhos: “– Estranho, pareço eu – balbucia Ana.”

A Ana do livro era ela, estava certa agora. Intrigada, corre ao fim da história…

“A Ana do livro era ela, estava certa agora. Intrigada, corre ao fim da história… Inesperado, com um leve ranger de porta, André, enfim de volta da Amazónia! Entra, na mão um grande ramo de rosas bravas, como ela gostava. – André, que surpresa! – grita Ana, retrato de felicidade.”

– André que surpresa! – grita Ana, retrato de felicidade.

“André sopra a zarabatana, dissimulada entre as rosas. A seta de curare letal entra fundo na garganta da namorada, como uma zaragatoa. Ah! ”

– Ah!

In Ficções n.º 6, Brasil, e in “Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias”, Campo das Letras, Augusto Baptista