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terça-feira, 29 de setembro de 2026

 ACORDEM!

Entra no metro, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.

Cercado de um tal alheamento, num impulso indignado, dispara:

– Acordem! Bando de sonâmbulos, acordem!

Erguem-se cabeças espantadas,  à procura da voz. 

Fala com mais ímpeto, grita:

– Acordem! Abram os olhos! Acordem! Vejam a desgraça, a miséria a tomar conta de nós! A droga! O clima! A fome! A guerra! O mundo a cair no abismo! Bando de sonâmbulos, acordem!

Há quem se afaste, vire costas, quem reaja: 

– Cala-te, cretino!

Entre solavancos, encontrões:

–  Queres limitar a liberdade dos outros?! Isso era no tempo da outra senhora!

No fundo, punhos no ar, alguém mais exaltado:

– Ponham o gajo lá fora!

Na vozearia, nos protestos, nos ânimos que fervem, o metro detém-se na estação seguinte.

Saem, entram passageiros, seguranças. Com presteza, a voz – levada de asa – agora inflama a gare. No burburinho, no sururu, insistente, entrecortada:

– ... a desgraça... a guerra... no abismo... aco... acor... dem!

O metro arranca, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.

Augusto Baptista

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