ACORDEM!
Entra no metro, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.
Cercado de um tal alheamento, num impulso indignado, dispara:
– Acordem! Bando de sonâmbulos, acordem!
Erguem-se cabeças espantadas, à procura da voz.
Fala com mais ímpeto, grita:
– Acordem! Abram os olhos! Acordem! Vejam a desgraça, a miséria a tomar conta de nós! A droga! O clima! A fome! A guerra! O mundo a cair no abismo! Bando de sonâmbulos, acordem!
Há quem se afaste, vire costas, quem reaja:
– Cala-te, cretino!
Entre solavancos, encontrões:
– Queres limitar a liberdade dos outros?! Isso era no tempo da outra senhora!
No fundo, punhos no ar, alguém mais exaltado:
– Ponham o gajo lá fora!
Na vozearia, nos protestos, nos ânimos que fervem, o metro detém-se na estação seguinte.
Saem, entram passageiros, seguranças. Com presteza, a voz – levada de asa – agora inflama a gare. No burburinho, no sururu, insistente, entrecortada:
– ... a desgraça... a guerra... no abismo... aco... acor... dem!
O metro arranca, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.
Augusto Baptista
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