RITUAL
Nos dias de muito calor ele corre para a beira-mar e mergulha. Na leitura de um livro. Na contemplação da paisagem. Numa sombra acolhedora. Depois, suado, vai até casa passar-se por água.
Augusto Baptista
HISTÓRIAS COM ASAS
– Então, como vamos de prosas?
– Não me posso queixar. E das que tilintam! Desse lado?
– Vão saindo. Devagar, vão saindo. Mas as minhas prosas não têm essa densidade metálica. Não consigo.
– Há que insistir! Com trabalho, persistência...
– Acredito. Mas, sabe, as minhas prosas, quando as termino e as solto, elas voam.
Augusto Baptista
DÉJÀ VU
– Do you speak english?
– O que quer este gajo?
– Quer saber se falas a língua dele?
– E qual é a língua dele?
– Inglês!
– Como sabes que a língua dele é o inglês?
– Porque o gajo te perguntou se falas inglês.
– Eu falar inglês não quer dizer que a língua dele seja o inglês. Posso falar inglês e a língua dele ser outra.
– Ou não. Podes muito bem falar inglês e a língua dele ser o inglês.
– Mas eu não falo inglês, tu sabes!
– Não compliques. Falares ou não inglês não interessa para o caso.
– Então porque é que o gajo veio ter comigo?
– Para saber se falavas a língua dele, o inglês.
– Isso é o que tu dizes. Olha, pergunta-lhe se a língua dele é o inglês!
– Onde ele já vai! E tenho mais que fazer!
– Sempre o mesmo! Sempre a levar a tua avante!
– Lá estás tu! Não perdes a oportunidade de picar. Tens a quem sair!
– A minha mãe não é para aqui chamada!
– Uma pessoa vem à rua desopilar e arranjas logo uma cena. Arre!
– Vamos para casa antes que eu perca as estribeiras! Francamente...
– Francamente digo eu! Que feitio!
– Olha, minha querida, se não estás para me aturar isso tem bom remédio!
– Poupa-me! Por favor, poupa-me!
– Parlez-vous français?
– Só cá faltava este! O que quer o gajo?
– Quer saber se falas a língua dele.
– E qual é a língua dele?
– Francês!
– E como sabes que a língua dele é o francês?
– Porque o gajo te perguntou se falas francês.
Augusto Baptista
INCIDENTE DE CAÇA
Decidiu dedicar-se à caça. À caça ao carapau, com arpão!
Apetrechado, fez-se ao mar. Alçado numa penedia, arpão na mão, silencioso, perscrutador das entranhas marinhas, quedou-se à espera.
Longa espera.
Madrugada, ondulando rente ao fundo, um carapau. Dos grandes!
Na tensão do arremesso, uma voz. Familiar:
– Anibal, o que fazes em cima da cómoda com o garfo do churrasco apontado para mim?! Acorda, homem!
Era dona Antónia, a consorte, a lixar-lhe a caçada.
Augusto Baptista