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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 DÉJÀ VU

– Do you speak english?

– O que quer este gajo?

– Quer saber se falas a língua dele?

– E qual é a língua dele?

– Inglês!

– Como sabes que a língua dele é o inglês?

– Porque o gajo te perguntou se falas inglês.

– Eu falar inglês não quer dizer que a língua dele seja o inglês. Posso falar inglês e a língua dele ser outra.

– Ou não. Podes muito bem falar inglês e a língua dele ser o inglês.

– Mas eu não falo inglês, tu sabes! 

– Não compliques. Falares ou não inglês não interessa para o caso. 

– Então porque é que o gajo veio ter comigo? 

– Para saber se falavas a língua dele, o inglês.

– Isso é o que tu dizes. Olha, pergunta-lhe se a língua dele é o inglês!

– Onde ele já vai! E tenho mais que fazer!

– Sempre o mesmo! Sempre a levar a tua avante!

– Lá estás tu! Não perdes a oportunidade de picar. Tens a quem sair!

– A minha mãe não é para aqui chamada!

– Uma pessoa vem à rua desopilar e arranjas logo uma cena. Arre!

– Vamos para casa antes que eu perca as estribeiras! Francamente...

– Francamente digo eu! Que feitio! 

– Olha, minha querida, se não estás para me aturar isso tem bom remédio!

– Poupa-me! Por favor, poupa-me!

– Parlez-vous français?

– Só cá faltava este! O que quer o gajo?

– Quer saber se falas a língua dele.

– E qual é a língua dele?

– Francês!

– E como sabes que a língua dele é o francês?

– Porque o gajo te perguntou se falas francês.

Augusto Baptista

sábado, 1 de agosto de 2026

 Enigma 3366

Decide-te: vens ou ficas?

Augusto Baptista

 Enigma 3365

Quem se julga ela: a Marquesa de Alorna?

Augusto Baptista

 Enigma 3364

Não havia uma fronha mais horrível para tatuares na barriga?

Augusto Baptista

sexta-feira, 31 de julho de 2026

 INCIDENTE DE CAÇA

Decidiu dedicar-se à caça. À caça ao carapau, com arpão! 

Apetrechado, fez-se ao mar. Alçado numa penedia, arpão na mão, silencioso, perscrutador das entranhas marinhas, quedou-se à espera.

Longa espera.

Madrugada, ondulando rente ao fundo, um carapau. Dos grandes!

Na tensão do arremesso, uma voz. Familiar:

– Anibal, o que fazes em cima da cómoda com o garfo do churrasco apontado para mim?! Acorda, homem!

Era dona Antónia, a consorte, a lixar-lhe a caçada.

Augusto Baptista

quinta-feira, 30 de julho de 2026

IDEIAS AVANÇADAS

– O senhor tem ideias, inegável, mas...

– Isso é mau, senhor doutor?

– Depende.

– Como assim?

– Há limites.

– Limites para as ideias?

– Para tudo.

– Pode concretizar, senhor doutor?

– Essa de querer ir de Bragança à Serra da Estrela de submarino, convenhamos...

– Não alcanço...

– Não lembra ao diabo!

– Por amor de Deus! Água, temos. E com berbequim operam-se milagres!

– Pois, pois, e submarinos?

– Ó, raio, submarinos realmente há falta. Ideia tola, de facto.

– É nos detalhes que as grandes ideias falham, caro senhor! Outro galo cantaria se tivesse imaginado fazer a viagem à superfície.

– À superfície?!

– Exacto, à superfície!

– À superfície, como assim?

– De barco a remos, claro! Com estes preços, certamente não lhe passa pela cabeça ir num barco a gasolina.                                                                                                                                                                                                Augusto Baptista 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

 HUMORES NÃO CORRESPONDIDOS

Cresceu e vive só numa exuberante ilha perdida. Mistério como ali apareceu, milagre como sobrevive.

De si não sabe, além das mãos, da sua sombra nua no areal, e do que enxerga do peito para baixo. Sem encontrar explicação para as flácidas pendências ao fundo, com humores tão inesperados, tão impositivos, a que ele não sabe como corresponder.

Augusto Baptista