MANU SCRIPTUM
Autor conhecido e reconhecido nos meios literários, distingue-se pela riqueza das suas concisas escrituras, o rigor com que enlaça as palavras, entretece o discurso.
Como se tal não fora já uma demasia, projecta o talento para a órbita do absoluto quando inscreve as suas decantadas criações em gravuras publicadas pelo corpo, letra pequenina. Desta tarefa cuidam reputados redactores, Mestres na arte da tatuagem, a nata dos herdeiros do iluminismo medieval. O resultado faz dele um corpo de culto, um raríssimo e vivo manuscrito, numa dinâmica de paulatino enriquecimento de forma e conteúdo.
Avesso a consultas, a mediatismos, fecha-se no seu mundo. Quando sai, corpo vendado para nada revelar sobre si e a obra publicada, seguem-no legiões de curiosos, especialistas, a tentar aceder a alguma área corporal por imprevidência a descoberto. Praia é luxo que lhe está vedado. Relações amorosas não se lhe conhecem, para não dar a saber os universos recônditos da sua criação.
Tudo fazendo por passar despercebido, laborar em paz, paradoxalmente é um fenómeno de popularidade, o que deveras o amofina. Quando transpiram notícias de novas publicações vem gente de todo o lado bater-lhe à porta. Diligência inglória: não atende ninguém! E surgem desaguisados, conflitos, casos sérios de polícia, protestos incendiados.
Neste quadro de tensão e agudo conflito social, em prol do conhecimento, do livre acesso às fontes, aguardam os estudiosos – com nervosa impaciência – a publicação de uma curtida edição póstuma do manuscrito. E de copiosos fac-símiles.
Entrementes, mergulhado no seu mundo, continua ele produzindo-se.
Augusto Baptista
Sem comentários:
Enviar um comentário