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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 A DÚVIDA

Os barras da IA garantem que o feitiço se está a virar contra o feiticeiro e, breve, Humanidade: saudade.

Só falta dizerem quando? Rigorosamente!

Augusto Baptista

 ETERNIDADE

De repente o estádio em silêncio, ele em silêncio, o guarda-redes em silêncio, a baliza em silêncio, a bola em silêncio na marca de penalti. À espera do apito do árbitro.

Augusto Baptista

 O AMESTRADOR

Atirou a bola ao ar. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.

Atirou a bola ao chão. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.

Atirou a bola à parede. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.

Ensaiou o exercício com outras bolas, alcançou iguais resultados.

Largou o emprego, abraçou o novo ofício: amestrador de bolas à quarta.

Augusto Baptista

terça-feira, 29 de setembro de 2026

 ACORDEM!

Entra no metro, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.

Cercado de um tal alheamento, num impulso indignado, dispara:

– Acordem! Bando de sonâmbulos, acordem!

Erguem-se cabeças espantadas,  à procura da voz. 

Fala com mais ímpeto, grita:

– Acordem! Abram os olhos! Acordem! Vejam a desgraça, a miséria a tomar conta de nós! A droga! O clima! A fome! A guerra! O mundo a cair no abismo! Bando de sonâmbulos, acordem!

Há quem se afaste, vire costas, quem reaja: 

– Cala-te, cretino!

Entre solavancos, encontrões:

–  Queres limitar a liberdade dos outros?! Isso era no tempo da outra senhora!

No fundo, punhos no ar, alguém mais exaltado:

– Ponham o gajo lá fora!

Na vozearia, nos protestos, nos ânimos que fervem, o metro detém-se na estação seguinte.

Saem, entram passageiros, seguranças. Com presteza, a voz – levada de asa – agora inflama a gare. No burburinho, no sururu, insistente, entrecortada:

– ... a desgraça... a guerra... no abismo... aco... acor... dem!

O metro arranca, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.

Augusto Baptista

 REPENTES

Na prova dos 50 quilómetros marcha, a meta à vista, apoderou-se do atleta o desalento. E foi a correr para casa.

Augusto Baptista

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

 A VOLTA AO MUNDO!

Virou-se para Poente, arremessou. Com espanto viu a pedra planar, desaparecer no horizonte.

Logo deu para intuir estar diante de um caso extraordinário: uma pedra voadora!

Virou-se para Nascente, ficou à espera. Que a pedra lhe viesse parar à mão.

Augusto Baptista

sábado, 26 de setembro de 2026

 Enigma 3377

É de alto risco riscar um risco alto?

Augusto Baptista

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 DESAFIO AÉREO

Ela chegou-se a ele, disse:

– Anda, vamos voar!

E foram.

Augusto Baptista

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 UMA EM TRÊS

Ela, cabeleira verde intenso; ele, mais virado para dar nas vistas, cabelo de um vermelho incendiado; loiro, muito loiro, o filhito do casal.

Quando saem à rua – pais nas pontas, filho no meio – toda a gente se queda em silêncio, em sentido. Por respeito à bandeira nacional.

Augusto Baptista

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 Enigma 3376

O que cai do céu aos trambolhões tropeçou atrás das Ursas ou escorregou na Via Láctea?

Augusto Baptista

sábado, 19 de setembro de 2026

 Enigma 3375

Como sabem as flores que a Primavera chegou?

Augusto Baptista

 Enigma 3374

Como é que as laranjeiras conseguem controlar os níveis de glicose?

Augusto Baptista

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

MANHÃS!

No céu da boca mandou tatuar uma alvorada e um bando de pardais. 

Agora as suas gargalhadas são manhãs irrequietas!

Augusto Baptista

 MANU SCRIPTUM

Autor conhecido e reconhecido nos meios literários, distingue-se  pela riqueza das suas concisas escrituras, o rigor com que enlaça as palavras, entretece o discurso.

Como se tal não fora já uma demasia, projecta o talento para a órbita do absoluto quando inscreve as suas decantadas criações em gravuras publicadas pelo corpo, letra pequenina. Desta tarefa cuidam reputados redactores, Mestres na arte da tatuagem, a nata dos herdeiros do iluminismo medieval. O resultado faz dele um corpo de culto, um raríssimo e vivo manuscrito, numa dinâmica de paulatino enriquecimento de forma e conteúdo. 

Avesso a consultas, a mediatismos, fecha-se no seu mundo. Quando sai, corpo vendado para nada revelar sobre si e a obra publicada, seguem-no legiões de curiosos, especialistas, a tentar aceder a alguma área corporal por imprevidência a descoberto. Praia é luxo que lhe está vedado. Relações amorosas não se lhe conhecem, para não dar a saber os universos recônditos da sua criação.

Tudo fazendo por passar despercebido, laborar em paz, paradoxalmente é um fenómeno de popularidade, o que deveras o amofina. Quando transpiram notícias de novas publicações vem gente de todo o lado bater-lhe à porta. Diligência inglória: não atende ninguém! E surgem desaguisados, conflitos, casos sérios de polícia, protestos incendiados.

Neste quadro de tensão e agudo conflito social, em prol do conhecimento, do livre acesso às fontes, aguardam os estudiosos – com nervosa impaciência – a publicação de uma curtida edição póstuma do manuscrito. E de copiosos fac-símiles.

Entrementes, mergulhado no seu mundo, continua ele produzindo-se.

Augusto Baptista


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

 MOVIMENTO PERPÉTUO

Enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista a suscitar encadeamentos, a abrir horizontes narrativos desafogados ou meros vislumbres, um simples sopro ténue entre lábios, um sussurro, um esboço de palavra, de uma primeira palavra, a que se juntaria outro esboço um pouco mais nítido, depois outro, outro, articulando frases, narrativa.

Reflectindo, não será esta ausência, esta branca, ela própria tema de escrita, até para descobrir como fugir de momentos assim, ou que fazer quando se quer e não somos capazes? Sensato será largar tudo, arejar, voltar noutra ocasião, quando a nuvem se tiver dissipado? Há regras, tudo aleatório?

Tivesse eu certezas arriscaria a redacção de um manual de escrita para quem quer escrever e não sabe, não é capaz, um compêndio com assegurada procura, a proporcionar viver dele.

Como certezas não tenho, sequer as certezas da incerteza, enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista a suscitar encadeamentos, a abrir horizontes narrativos desafogados ou meros vislumbres, um simples sopro ténue entre lábios, um sussurro, um esboço de palavra, de uma primeira palavra, a que se juntaria outro esboço um pouco mais nítido, depois outro, outro, articulando frases, narrativa.

Reflectindo, não será esta ausência, esta branca, ela própria tema de escrita, até para descobrir como fugir de momentos assim, ou que fazer quando se quer e não somos capazes? Sensato será largar tudo, arejar, voltar noutra ocasião, quando a nuvem se tiver dissipado? Há regras, tudo aleatório?

Tivesse eu certezas arriscaria a redacção de um manual de escrita para quem quer escrever e não sabe, não é capaz, um compêndio com assegurada procura, a proporcionar viver dele.

Como certezas não tenho, sequer as certezas da incerteza, enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista... 

Augusto Baptista

sábado, 12 de setembro de 2026

 O CANAVIAL

Matutando na severa carência de zonas verdes na cidade, gizou um plano. Quando disso falava aos amigos, lhe diziam: eh pá, és maluco! Fez ouvidos de mercador, concretizou o projecto. 

Em boa hora!

Rapado o cabelo, nessa ausência implantou o canavial. Que logo tratou de alimentar com uma breve linha de água, no sulco da risca.  

Tudo bem penteado, tem agora na cidade um sítio abrigado para namorar, um simpático parque ambulante onde rumar aos domingos.

Alternativa, se arribado à beira-mar, bem pode urdir cana de pesca, um arpão. Com sorte, resolver o jantar: peixe grelhado nas brasas da vegetação. 

Também, com paciência, labor, fácil é construir cabana, flautim. Um barco. A haste de uma bandeira! Difícil é, entre tantas desgraças que desgraçam o mundo, içar à cabeça a desgraça mais negra destas desgraças. 

TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! Quando o despertador acordou, TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! cansado, levou as mãos à cabeça: TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! o canavial ainda lá estava. TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI!... 

Augusto Baptista


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 Enigma 3373

Mais coisa menos coisa a coisa remonta a quando?

Augusto Baptista


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 O DESCUIDO

Tatuou na boca o bico; no corpo as penas, as asas. Subiu ao telhado, saltou.

Projectado no ar com elegância, esborracha-se no chão com estupidez: o passarão não cuidou de abrir as asas!

Augusto Baptista

  APRENDER, APRENDER SEMPRE! - 2

Cultor da pedagogia assente na experiência, quis – de um modo impressivo – transmitir ao filho o ensinamento de que na vida não há impossíveis.

A viagem de avião, o acesso de pai e filho à savana, a selecção da presa, a abordagem dissimulada, o enlace, a amarração, tudo exacto. Impunha-se agora o simples remate: trazer para casa o elefante.

Augusto Baptista

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 APRENDER, APRENDER SEMPRE! - 1

Cultor da pedagogia assente na experiência, quis – de um modo impressivo – transmitir ao filho o ensinamento de que na vida há impossíveis.

A viagem de avião, o acesso de pai e filho à savana, a selecção da presa, a abordagem dissimulada, o enlace, a amarração, tudo exacto. Impunha-se agora o remate: trazer para casa o elefante!

Augusto Baptista

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 Enigma 3372

São quantas as favas contadas?

Augusto Baptista

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

LIBERTAÇÃO

– A menina desculpe...

– Sim.

– Não me leve a mal...

– Sim.

– Eu só queria que a menina não fosse apanhada de surpresa.

– Diga, senhor, diga...

– Depois da esquina, por causa das obras ou assim, levanta-se ali um vento, está a ver?!

– Não!

– Um vento safado,  de baixo para cima, um vento que leva tudo pelos ares!

– Sim, e depois?

– E depois, a menina com esse vestido rodado...

– Explique-se!

– Prontos, viu o que aconteceu à Marilyn com um vestido assim, numa fita de Hollywood? 

– Obrigada pela dica! Deixe-o comigo!

O mundo suspenso, olhos vidrados: devagar ela saca o vestido! E num impulso, voando, dobra a esquina. O vento em êxtase. O vestido a drapejar, feito bandeira!

Augusto Baptista

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 Enigma 3371

O caminho marítimo para a Índia era sólido?

Augusto Baptista

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SESSÃO DE AUTÓGRAFOS
Pavilhão 29
FEIRA DO LIVRO DO PORTO
HÚMUS

Sábado
5 de Setembro, 17h00

JOÃO PEDRO MÉSSEDER
AUGUSTO BAPTISTA


 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 Enigma 3370

Os grandes horticultores estão-se borrifando para a horticultura?

Augusto Baptista