A DÚVIDA
Os barras da IA garantem que o feitiço se está a virar contra o feiticeiro e, breve, Humanidade: saudade.
Só falta dizerem quando? Rigorosamente!
Augusto Baptista
O AMESTRADOR
Atirou a bola ao ar. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.
Atirou a bola ao chão. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.
Atirou a bola à parede. Uma vez! Duas! Três! À quarta, a bola repetiu o andamento.
Ensaiou o exercício com outras bolas, alcançou iguais resultados.
Largou o emprego, abraçou o novo ofício: amestrador de bolas à quarta.
Augusto Baptista
ACORDEM!
Entra no metro, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.
Cercado de um tal alheamento, num impulso indignado, dispara:
– Acordem! Bando de sonâmbulos, acordem!
Erguem-se cabeças espantadas, à procura da voz.
Fala com mais ímpeto, grita:
– Acordem! Abram os olhos! Acordem! Vejam a desgraça, a miséria a tomar conta de nós! A droga! O clima! A fome! A guerra! O mundo a cair no abismo! Bando de sonâmbulos, acordem!
Há quem se afaste, vire costas, quem reaja:
– Cala-te, cretino!
Entre solavancos, encontrões:
– Queres limitar a liberdade dos outros?! Isso era no tempo da outra senhora!
No fundo, punhos no ar, alguém mais exaltado:
– Ponham o gajo lá fora!
Na vozearia, nos protestos, nos ânimos que fervem, o metro detém-se na estação seguinte.
Saem, entram passageiros, seguranças. Com presteza, a voz – levada de asa – agora inflama a gare. No burburinho, no sururu, insistente, entrecortada:
– ... a desgraça... a guerra... no abismo... aco... acor... dem!
O metro arranca, carruagens apinhadas. Passageiros sentados, passageiros de pé, olhos afogados no telemóvel.
Augusto Baptista
UMA EM TRÊS
Ela, cabeleira verde intenso; ele, mais virado para dar nas vistas, cabelo de um vermelho incendiado; loiro, muito loiro, o filhito do casal.
Quando saem à rua – pais nas pontas, filho no meio – toda a gente se queda em silêncio, em sentido. Por respeito à bandeira nacional.
Augusto Baptista
MANU SCRIPTUM
Autor conhecido e reconhecido nos meios literários, distingue-se pela riqueza das suas concisas escrituras, o rigor com que enlaça as palavras, entretece o discurso.
Como se tal não fora já uma demasia, projecta o talento para a órbita do absoluto quando inscreve as suas decantadas criações em gravuras publicadas pelo corpo, letra pequenina. Desta tarefa cuidam reputados redactores, Mestres na arte da tatuagem, a nata dos herdeiros do iluminismo medieval. O resultado faz dele um corpo de culto, um raríssimo e vivo manuscrito, numa dinâmica de paulatino enriquecimento de forma e conteúdo.
Avesso a consultas, a mediatismos, fecha-se no seu mundo. Quando sai, corpo vendado para nada revelar sobre si e a obra publicada, seguem-no legiões de curiosos, especialistas, a tentar aceder a alguma área corporal por imprevidência a descoberto. Praia é luxo que lhe está vedado. Relações amorosas não se lhe conhecem, para não dar a saber os universos recônditos da sua criação.
Tudo fazendo por passar despercebido, laborar em paz, paradoxalmente é um fenómeno de popularidade, o que deveras o amofina. Quando transpiram notícias de novas publicações vem gente de todo o lado bater-lhe à porta. Diligência inglória: não atende ninguém! E surgem desaguisados, conflitos, casos sérios de polícia, protestos incendiados.
Neste quadro de tensão e agudo conflito social, em prol do conhecimento, do livre acesso às fontes, aguardam os estudiosos – com nervosa impaciência – a publicação de uma curtida edição póstuma do manuscrito. E de copiosos fac-símiles.
Entrementes, mergulhado no seu mundo, continua ele produzindo-se.
Augusto Baptista
MOVIMENTO PERPÉTUO
Enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista a suscitar encadeamentos, a abrir horizontes narrativos desafogados ou meros vislumbres, um simples sopro ténue entre lábios, um sussurro, um esboço de palavra, de uma primeira palavra, a que se juntaria outro esboço um pouco mais nítido, depois outro, outro, articulando frases, narrativa.
Reflectindo, não será esta ausência, esta branca, ela própria tema de escrita, até para descobrir como fugir de momentos assim, ou que fazer quando se quer e não somos capazes? Sensato será largar tudo, arejar, voltar noutra ocasião, quando a nuvem se tiver dissipado? Há regras, tudo aleatório?
Tivesse eu certezas arriscaria a redacção de um manual de escrita para quem quer escrever e não sabe, não é capaz, um compêndio com assegurada procura, a proporcionar viver dele.
Como certezas não tenho, sequer as certezas da incerteza, enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista a suscitar encadeamentos, a abrir horizontes narrativos desafogados ou meros vislumbres, um simples sopro ténue entre lábios, um sussurro, um esboço de palavra, de uma primeira palavra, a que se juntaria outro esboço um pouco mais nítido, depois outro, outro, articulando frases, narrativa.
Reflectindo, não será esta ausência, esta branca, ela própria tema de escrita, até para descobrir como fugir de momentos assim, ou que fazer quando se quer e não somos capazes? Sensato será largar tudo, arejar, voltar noutra ocasião, quando a nuvem se tiver dissipado? Há regras, tudo aleatório?
Tivesse eu certezas arriscaria a redacção de um manual de escrita para quem quer escrever e não sabe, não é capaz, um compêndio com assegurada procura, a proporcionar viver dele.
Como certezas não tenho, sequer as certezas da incerteza, enleio-me no propósito de escrever uma história sem que me ocorra uma ideia, uma pista...
Augusto Baptista
O CANAVIAL
Matutando na severa carência de zonas verdes na cidade, gizou um plano. Quando disso falava aos amigos, lhe diziam: eh pá, és maluco! Fez ouvidos de mercador, concretizou o projecto.
Em boa hora!
Rapado o cabelo, nessa ausência implantou o canavial. Que logo tratou de alimentar com uma breve linha de água, no sulco da risca.
Tudo bem penteado, tem agora na cidade um sítio abrigado para namorar, um simpático parque ambulante onde rumar aos domingos.
Alternativa, se arribado à beira-mar, bem pode urdir cana de pesca, um arpão. Com sorte, resolver o jantar: peixe grelhado nas brasas da vegetação.
Também, com paciência, labor, fácil é construir cabana, flautim. Um barco. A haste de uma bandeira! Difícil é, entre tantas desgraças que desgraçam o mundo, içar à cabeça a desgraça mais negra destas desgraças.
TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! Quando o despertador acordou, TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! cansado, levou as mãos à cabeça: TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI! o canavial ainda lá estava. TRITRI! TRITRI! TRITRI! TRITRI!...
Augusto Baptista
APRENDER, APRENDER SEMPRE! - 2
Cultor da pedagogia assente na experiência, quis – de um modo impressivo – transmitir ao filho o ensinamento de que na vida não há impossíveis.
A viagem de avião, o acesso de pai e filho à savana, a selecção da presa, a abordagem dissimulada, o enlace, a amarração, tudo exacto. Impunha-se agora o simples remate: trazer para casa o elefante.
Augusto Baptista
APRENDER, APRENDER SEMPRE! - 1
Cultor da pedagogia assente na experiência, quis – de um modo impressivo – transmitir ao filho o ensinamento de que na vida há impossíveis.
A viagem de avião, o acesso de pai e filho à savana, a selecção da presa, a abordagem dissimulada, o enlace, a amarração, tudo exacto. Impunha-se agora o remate: trazer para casa o elefante!
Augusto Baptista
LIBERTAÇÃO
– A menina desculpe...
– Sim.
– Não me leve a mal...
– Sim.
– Eu só queria que a menina não fosse apanhada de surpresa.
– Diga, senhor, diga...
– Depois da esquina, por causa das obras ou assim, levanta-se ali um vento, está a ver?!
– Não!
– Um vento safado, de baixo para cima, um vento que leva tudo pelos ares!
– Sim, e depois?
– E depois, a menina com esse vestido rodado...
– Explique-se!
– Prontos, viu o que aconteceu à Marilyn com um vestido assim, numa fita de Hollywood?
– Obrigada pela dica! Deixe-o comigo!
O mundo suspenso, olhos vidrados: devagar ela saca o vestido! E num impulso, voando, dobra a esquina. O vento em êxtase. O vestido a drapejar, feito bandeira!
Augusto Baptista