sexta-feira, 30 de abril de 2010

Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias

Ana acorda. Abre um livro à toa, lê:

E, no livro: “Ana acorda. Abre um livro à toa, lê: ”

– Estranho, pareço eu – balbucia Ana.

E, de novo no livro, como num jogo de espelhos: “– Estranho, pareço eu – balbucia Ana.”

A Ana do livro era ela, estava certa agora. Intrigada, corre ao fim da história…

“A Ana do livro era ela, estava certa agora. Intrigada, corre ao fim da história… Inesperado, com um leve ranger de porta, André, enfim de volta da Amazónia! Entra, na mão um grande ramo de rosas bravas, como ela gostava. – André, que surpresa! – grita Ana, retrato de felicidade.”

– André que surpresa! – grita Ana, retrato de felicidade.

“André sopra a zarabatana, dissimulada entre as rosas. A seta de curare letal entra fundo na garganta da namorada, como uma zaragatoa. Ah! ”

– Ah!

In Ficções n.º 6, Brasil, e in “Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias”, Campo das Letras, Augusto Baptista


Humor ao alto X

Dos grilos 2

Deslurado, por acção do caçador, o músico emerge no terreiro. Tal-qualmente negra besta a irromper dos curros, vai deter-se no redondel, hastes perscrutadoras. Por desconforto ou apreensão, um frémito de crença natural impelirá o touro para o aconchego do curral, o colo da mãe, a bem dizer. Também o grilo apontará as armações para o oco do lar. Investirá, impetuoso, e, num ápice, irá mergulhar de cabeça na escuridão. Se nada o obstar.
Este saber, apreendido desde o homem das cavernas na predação canora, é crucial para o êxito da caçada. Cabe agora ao predador, elucidado, num oportuno e preciso golpe-de-mão, desembaraçar-se da poética arma vegetal – a palheirinha – e, indicador tenso, passar à prosa: travar a fuga, obstruir por acção da falangeta o acesso ao sombrio escape. Com a mesmíssima prosaica fulminância, a presa confirmará o antevisto recolhimento.
Na hipótese de o caçador ter alcançado primeiramente o habitáculo, este cerrado, o grilo frustrará intentos furtivos. Acto contínuo, a mão oclusiva liberta a falangeta e, num justo abre-fecha palmar, engole a presa. Tudo rápido, à guisa de vermelhinha. E sem molestar o músico, como a deontologia obriga.
Grilo na mão, é chegado o momento crucial: a prova.
A raivosa fera, que em tal se transformam pacíficos prisioneiros, usará derradeira arma, demolidor argumento no calor da luta. Com o vigor de suas descomunais mandíbulas desfere metálico golpe no fortim palmar. Dolorosa punhalada na pele, na carne, na tenra mão! Como na vida, em outros episódios, o desfecho da história vai depender da têmpera do pequeno caçador.
Augusto Baptista in reporter.canalblog.com/






Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias


Entreolham-se. E entresonhando, entretecem entrebeijos entretanto. Entredentes, entreouvidos, entresseios, entressorrindo entrementes, nas entrelinhas dos entrenós, entrecruzam entretelas. Entreligam entremeios. Entrelaçam entrefolhos. Entrechocam entretalhos. Entrepernas entretidos.

In “Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias”, Campo das Letras, Augusto Baptista

quinta-feira, 29 de abril de 2010


Humor ao alto IX




Dos grilos 1

A caça ao grilo sempre foi ali uma cerimónia com a liturgia do silêncio, um ritual mudo. Noutros lugares, o acto é sonoro, mais profano, com os meninos autorizados, pelo grilo, a emitir cantorias na veação.

Há-as funestas:


Grilinho sai, sai

Que mataram o teu pai.


Há-as de poética melopeia:


Grilinho à porta

Que andam as cabrinhas na horta.


Há-as de matiz popular:


Grilo, grileiro

Está à porta o João gaiteiro.


Pelo rigor dos versos responde o Professor Carlos Teixeira em “Superstições da Terra de Rossas”, estudo publicado em 1934 e que a junta da freguesia berço do erudito investigador e geólogo reeditou em 1996, com Limiar e poético Prefácio. O mesmo rigor, seguramente, com que Carlos Teixeira e Torre Assunção estudaram – na aldeia da Castanheira, chão de Arouca – outros seres fantásticos aparentadas aos grilos: as pedras parideiras, criaturas que – como é sabido – o povo ouve cantar, doloridamente, nas noites de parto.

Voltemos aos grilos.

O silêncio ou o palavreado, aquando da captura, modelam o sentimento, o timbre das cordas vocais, por assim dizer, dos artistas. Deste modo, há-os mais melodiosos, mais calados, mais tendenciosos para a ópera, mais para o fado. E, entre os fadistas, toda a gente sabe, há dos que lhes tomba a asa para Lisboa, para Coimbra. Como os grilos, exactamente.

Influência na canção, diz-se, terá também o regime alimentar. Há primorosos trovadores com serradela ou alface tenra e um torrão de açúcar. Amarelo. Outros lhes basta sorver o hálito do Verão. Nas asas.


Augusto Baptista


Humor ao alto VIII

Humor ao alto VII

Meu predador de azuis 2


Humor ao alto VI

O homem que murchou



Os verdes anos passou-os na cidade fechado em gabinetes, estufas alcatifadas, submetido a regras, horas certas, gravata. Tudo lúcido, exacto. Sem Sol. Depois a reforma, o campo, os pássaros, árvores, a contemplação por detrás da cortina para não recozer a pele, as mãos sobre a bengala, o tempo a sobejar.

Às vezes a família aparece, olhos de relógio. Conversa, a de sempre, quase só silêncios. Na hora da despedida, uma vez não se conteve, falou. Falou e disse, a olhar os campos mirrados no bafo da tarde, hoje estou triste, disse, numa poética campesina que ninguém ali alcançou, sequer procurou compreender, disse, fixo nos frutos engelhados, tontos, hoje estou triste como um tomate.

(in "O homem que", gatopardo 2008, Augusto Baptista)


Humor ao alto V

O homem que perdeu o Pai Natal


Ainda no berço, conheci-o. Lembrança difusa, odor a canela. Depois, miúdo, recordo-o num hálito quente e nítido de bacalhau e batatas, pés de tronchuda, a boca da panela, sempre a maior, baforadas densas a enevoarem a cozinha. Iluminada pela toalha de linho da avó, mesa farta: bilharacos, rabanadas, uvas passas. E nozes, pinhões, apesar do preço.

O tempo da família grande.

Todos apareciam. E ele não faltava. Chegava tarde, ceia alta, por volta da hora explosiva do espumante, rolhas no tecto em ricochetes cegos. No auge do alvoroço, pam! Todo o mundo, pam!, transido, se calava. As pancadas, pam!, as três pancadas com a acha na grelha do fogão a lenha.

O sinal.

Recuperada a respiração, algazarra, saltávamos aos brinquedos. No frenesim do que era meu, teu, por ali andaria ainda ele na cozinha, embora com rigor e em verdade nunca nos tenhamos cruzado, o tenha visto.

Anos mais tarde, a mudança para a cidade, um sem-regresso ao aconchego da velha casa. E a revelação cruel de todo o embuste.

Longo luto.

Um dia, homem feito, às compras num centro comercial, de repente, em carne e osso, à minha frente: o patriarca da infância. As mesmas barbas brancas!

Não mais larguei o meu herói. Deslumbrada sombra, segui-o para todo o lado, horas a fio. Até que às tantas ele se aproximou e, baixinho, barbas coladas ao ouvido, se aproximou e disse para eu o esperar mais adiante, ao dobrar da esquina. Que ia só ali, e vinha já.

(in "O homem que", gatopardo 2008, Augusto Baptista)



PORTO 1
© Augusto Baptista

quarta-feira, 28 de abril de 2010


Humor ao alto IV



Humor ao alto III



Meu predador de azuis

© Augusto Baptista

terça-feira, 27 de abril de 2010

A DEMOCRATIZAÇÃO DA CUECA*

Testemunhei um milagre. Exactamente: um milagre. A história conta-se em poucas linhas e passou-se há cerca de dois anos.
Ia eu na A1 para Coimbra, ao volante o meu amigo Fernando Mora Ramos, a rondar Albergaria-a-Velha, de repente o céu ruiu numa tormenta de granizo. No lençol de gelo, logo um carro se despista à nossa frente. Acudimos ao sinistro. Acto contínuo, outra viatura derrapa, bate nos rails, uma, outra, bate outra vez, serpenteia, bate de novo, guina, bate, até que pára.
Do lugar do morto salta uma senhora, trinta e tal anos, incólume. E fica no meio da via, branca. Pasmada. Puxo-a para a berma. Trémula, vasculha a malinha e, aflita, perscruta o chão:

— O Buda, o meu Buda?!

No caos, na vertigem dos carros a passar, tolhi-lhe o propósito de entrar na auto-estrada em demanda do talismã. Numa momentânea acalmia, fui resgatar a divindade, esfacelada, estracinhada, a julgar pelos carros que a terão sobrepassado. Bem no centro do asfalto, pus a mão à pesada figurinha. Riso anafado, olhou-me em tons de vinho. Intacta. Milagre, só podia ser milagre.
Um milagre oriental com o mesmo fluido metafísico que pressinto no modo fulminante como o comércio das bugigangas se implantou no Porto. Rua Cimo de Vila, Rua Chã, Rua do Loureiro, Rua das Flores acordaram de repente numa explosão de cintilantes madrepérolas, lantejoulas, quinquilharia, novos comércios com letreiros em Chinês, montras e janelos afogados em odores de perfume Piramisu, em cores de soutien Mei Mei Wen, de carteiras Sanyun, de camisas Tengxu. E há gargantilhas, colares, joalharia Xing Zuan. E relógios Senlon, turbantes, óculos de sol, capas de telemóvel, jarrões, grilos cantantes, centros de mesa de fibra óptica.
E há cuecas.
Há cuecas com pompons amarelos, rendinha azul. Cuecas folhosas, nylon vermelho e roxo, fitinha de cetim. Cueca erótica para o povo, versão YongQuian, modelado Sy Ting Ming, sortido Qiao Sin. É a democratização do fio dental!

Enquanto isto, definha o velho comércio, morrem as lojas de ferramentas, de solas e cabedais, fazendas, parafusos, adubos e sementes. Fecham oficinas de aguçadura de cinzéis de pedreiro, enxadas, picaretas.
Em Santa Catarina, onde floresce um comércio com salero, paira às vezes um som de acordeão, na rua um miúdo sentado rente à parede, a tocar. Por cima do instrumento, um cãozinho acrobático, na boca o cesto das esmolas. Pequenino. À medida do cão, do acordeonista, das esmolas, e destes tempos.

(Augusto Baptista, in Notícias Magazine, 2002)


Humor ao alto II

O SEXO NO WC








Lugares de peregrinação obrigatória, as casas de banho constituem destino divergente para homens, para mulheres. Esta particularidade levou ao surgimento de sinalização apropriada, indicando a porta de Adão, a porta de Eva. Aqui publico - entre histórias, observações e notícias - retratos destes peculiares sinais de trânsito.



W.C., casa de banho, sanitários, lavabos são modos frequentes de designar o sítio em que se cumprem imperativos bem precisos. Retrete é hoje palavra segregada. Colou-se à designação ideia sombria, imagem de local acanhado, fétido, insalubre. De mau gosto seria inquirir num restaurante pela retrete, pela latrina ou, pior ainda, usar vocábulos que o dicionário consagra, mas que a sociedade condiciona. Num tasco, entre copos de tinto e verbo despudorado, outros seriam os entendimentos.

Ao arrepio dos juízos do presente, no apeadeiro de Miramar, entre as estações ferroviárias Campanhã-Espinho, maiúsculas gradas em azulejo antigo, sobrevivem "Retretes", para "Hómens" e "Senhôras". Uma relíquia vocabular a resistir à margem da linha. E do tempo.

Em desuso caíram as palavras comua, sentina, cloaca. Esta a dar origem a cloacário: funcionário que entre os romanos tratava das instalações sanitárias e dos canos de esgoto. Igual destino tiveram os vocábulos privada, necessárias, casinha, secreta.

Necessárias, ainda apanhei este termo, letra gorda, no exterior de um refúgio de aflições, quase em ruínas. Privada e casinha é raro ouvir. E pena foi que se tivesse perdido a designação secreta. Entre todas, secreta será talvez a palavra que melhor exprime este universo reservado, solitário, pessoal, íntimo.

Apesar da consagrada individualidade do espaço, há utilizadores com outros pensamentos. Na estação de Campanhã, as portas das cabinas sanitárias masculinas exibiam tabuleta: "Só é permitida a entrada a uma pessoa de cada vez" (após pagamento de 50 cêntimos). Na área dos lavatórios, novas e enigmáticas chamadas de atenção: "Usar os secadores apenas para secar as mãos" e "Só é permitido trocar de roupa dentro dos sanitários".

De volta à terminologia, o Froufe Andrade, parceiro de andanças jornalísticas, contou-me uma história. Ele miúdo, um dia chegou a casa da avó uma velha amiga: dona Carmen. Apóstola da Acção Católica, cristianíssima figura, chapéu preto com véu de renda, a senhora vinha impressionada. Em missão de bem-fazer por ilhas e bairros pobres a distribuir pagelas, santinhos e boas palavras, calhou de entrar em lar incréu. Boqueabriu: "Um mimo de limpeza, dona Margarida. Até o posto humilde dava gosto ver". Dona Carmen pelas costas, intrigado, o pequeno Froufe perguntou que coisa era posto humilde. "É a casinha", esclareceu a avó.

Posto humilde! Lugar de despojamento, verdade, igualização - ditada por cotas naturais. Difícil é imaginar empresário de sucesso, top model, governante, a frequentar o habitáculo, o posto humilde, em obediência às leis do corpo. Amedronta tanta fragilidade.

Lidamos mal com a nossa natureza. Defendemo-nos com o humor. A rir exorcizamos fantasmas, compartilhamos receios. Socializamos o que é do foro privado, pessoal. É fértil o anedotário, as quadras alusivas. Na própria casa de banho, as portas, as paredes, são painéis escrevinhados a lápis, a esferográfica, a canivete. Prepondera, com respeito aos espaços masculinos, o texto boçal, primário: rosto sem máscara de tempos concretos, provocação, catarse. Mas há surpresas: desabafos lúcidos, apontamentos bem dispostos, criativos.

Esta escrita escatológica pressupõe um público leitor fiel e disponível, que frequentemente interage, se manifesta, corta, reescreve, opina. Mas parte dos utentes, maioria silenciosa, fica-se pela leitura. Dos escritos, e de jornais, revistas, histórias aos quadradinhos. E há quem aproveite para consultar livros de estudo, concentrar-se em prosa substantiva, poesia, texto técnico.

Constante é a disponibilidade para "ler a mensagem", o que fez com que a publicidade se tente insinuar no local. O "Jornal de Notícias", há uns cinco anos, noticiava a instalação duma rede de 1 500 placards visando públicos-alvo diferenciados, nos sanitários de bares, restaurantes, clínicas, centros de espectáculos e de exposições.

O princípio era simples. Os empresários alugavam “uma ou mais paredes por cima da sanita ou do lava-mãos" e, nesse espaço, eram colocadas molduras para afixação publicitária. Seria "um verdadeiro tête-a tête entre um único potencial consumidor e a moldura-anúncio", garantia o artigo. Não parece que o negócio prosperasse, a traduzir reservas do universo libertário da secreta à profanação do seu espaço.

Pedro Barbosa, docente universitário, publicou em 1976 "O guardador de retretes". Obra "que pelo conteúdo e contra a intenção é um anti-livro" à volta dos escritos solitários em paredes e portas dos lavabos. Aí consta matéria de reflexão, coligida no decurso de "atribuladas e internacionais deambulações retretológicas por essa velha Europa, além-aquém". E o que nos fica é um texto humorado e ácido, acompanhado da transcrição de quadras, desabafos "retretológicos", em Portugal sobretudo, e no masculino. Quanto à nossa "retretologia feminina", o autor conclui "por testemunhos indirectos" haver menor produtividade, menor grau de politização, menor teor pornográfico e, enfim, "um acentuado pendor para o sentimentalismo, com abundância de coraçõeszinhos (...)".

A diferenciação sexual não ocorre só no discurso interior. Nos cafés, restaurantes, bares, praças públicas, as casas de banho são, na sua exterioridade e habitualmente, ponto de divergência. Quem demandar as instalações, quase sempre situadas em lugar escuso, ao fundo, sabe que, em dado momento, os homens vão num sentido, as mulheres noutro. Às vezes, para utilização comum, há um lavatório exterior, um secador de mãos, um espelho. Mas, por norma, são espaços separados, dir-se-ia opostos. Para cada lado, abre-se uma área ampla ou exígua, com utensilagem apropriada ao ser masculino ou feminino.

O que se passa em cada mundo é mistério, para o outro. Homem de bem a entrar na casa de banho das senhoras - ou vice-versa - só por embaraçoso lapso. Transgressão que rapidamente deverá ser sanada com inversão de marcha, desculpas, e risinho.

Este estado de coisas pressupõe a existência de indicações claras, exteriores às instalações, que, num relance e sem equívocos, esclareçam qual dos mundos demandar: o dos homens, o das mulheres.

Justamente Homens/Mulheres, referência escrita com frequência em maiúsculas, é um dos modos de sinalização entre nós. Alternativa é Homens/Senhoras ou, para os dois casos, a versão abreviada H/M e H/S. As variadas soluções às vezes casam com fotografias e desenhos, realistas ou estilizados, em que se expressa de um modo visualmente eficaz, entendível pela generalidade dos aflitos, qual o caminho a tomar, que porta abrir.

Cada vez mais, convém dizer, as placas indicativas aparecem com grafismo padronizado, em prejuízo da variedade, da imaginação das soluções. Também ultimamente, em espaços modernos, começaram a surgir sanitários adaptados a casos de deficiência física: um novo e importante tipo de infraestrutura, com implantação crescente e sinalização própria.

Enfim, haja olhos para as figuras, os sinais: amostra dos modos como hoje, entre nós e pelo mundo (com o apoio da internet) se diz homem, se diz mulher, secretamente.

(© Texto de Augusto Baptista)