DURA LEX
Tatuou uma saia, casaco, blusa, meias de vidro, sapatos de salto alto.
Saiu.
Na rua, um polícia:
– A senhora não pode andar assim!
– Assim?
– Dessa maneira!
– Não estou a entender.
– Não pode andar nesses preparos!
– Desculpe, continuo a não entender.
– Não pode circular na via pública nesse desamparo de roupa!
– Qual o problema, estou de saia, casaco, blusa ...
– Pois, pois. E por baixo?
– Ah, como são coisas de pôr e tirar, isso...
– O argumento não colhe. A blusa também é da mesma natureza. A saia.
– ... isso achei que não havia necessidade.
– Bonito, não havia necessidade... E a decência?!
– Nada que as pessoas... Não nascemos vestidos!
– O decoro, os bons costumes...
– Hipocrisia!
– ... a lei!
– Ah, a lei! Confesso, não me lembrei. Pois, a lei!
– A ocorrência configura prevaricação grave. Dá cadeia!
– Que chatice!
– Nem lhe passa pela cabeça a encrenca!
– Que chatice! E o senhor guarda não poderia, sei lá, não poderia fechar os olhos?
– Fechar os olhos seria a última coisa a passar-me pela cabeça, minha senhora! Dura lex! Dura lex!
Augusto Baptista
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