Enigma 3348
Acontece haver gente a cair, quando as andorinhas passam rasteiras?
Augusto Baptista
O Encantador de Sereias, de Augusto Baptista
Domingos Lobo
Num tempo em que a fasquia da qualidade literária começa a colocar-se dramaticamente baixa; num tempo em que figuras mediáticas, obreiras de livros possidónios, despacham autógrafos como velas de procissão; do regresso com trombetas e marketing apurado de uma escrita de pipocas e chá de tília, promovida a acontecimento mundano nas páginas das revista de coração lorpa; escritinha que vende tanto como a música pimba anglo-saxónica e se pavoneia nos écrans das televisões como se de um detergente se tratasse; que se mostra nas fachadas de prédios degradados ao lado de cartazes de Tony Carreira; num tempo assim, a tocar o fundo (quanto mais se toca no fundo, mais ele desce), olhamos o céu e o negrume quase nos açoita, impiedoso.
Manuel Vasques Montalban, ao referir-se há uns anos, cáustico como sempre, à vida cultural madrilena, aventava que a literatura se reduzirá, a breve trecho, a pouco mais que de cordel, para ler de pé no intervalos das copas e das tapas. Se este era, no início do século XXI, o panorama desolador sentido pelos nossos vizinhos ibéricos – cujo consumo cultural é incomparavelmente superior ao nosso, com uma literatura pujante, influente e de dimensão planetária – o que então dizer de um pais onde apenas 15% da população lê com alguma regularidade, onde 4 milhões de almas se quedam sonolentas e passivas frente a écrans de televisão a olhar a sordidez dos quotidianos enjaulados de um grupo de rapazes e raparigas que dizem banalidades com a convicção boçal de quem está a rasurar badanas da história, fingem orgasmos frente ao olhar omnipresente das câmaras e só com muito esforço conseguem articular, ao longo de 24 horas de sujeição comum, mais de 100 vocábulos, incluindo parga de verborreia canhestra e larvar e bués da gíria.
No panorama desolador das artes em Portugal, pais cujos responsáveis por esta área (agora menorizada, com uma ministra que parece pouco focada na matéria e com um orçamento cada vez mais miserável, muito longe do 1% que os criadores reivindicam), cercados pela programação das estações televisivas, que impingem o telelixo recolhido de todos os esgotos audiovisuais do hemisfério, ainda há espaço para a leitura, ainda é possível produzir literatura que exija do leitor tempo e contemplação, como escreveu Maria Gabriela Llansol, ou simplesmente seja a festa da sensibilidade, como a definiu Werner Krauss? Literatura a fazer-se despertar-nos para outras profundezas da vida, a urdir-se de signos efabulatórios que reconduzem o leitor pelos caminhos das questões humanas e do racional, a um tempo arguta, organicamente límpida e envolvente – literatura para o gozo dos sentidos mas a inquietar-nos, a sorver-se devagar como um vinho de velhas cepas, a desenvolver uma ideia nova que nos intranquilize e nos faça sentir vivos.
Um livro assim, a despertar-nos para as coisas fecundas da vida, entre o absurdo e o surrealismo remoçado, a envolver a denúncia da amargura dos quotidianos frustres, a tornar o real mais nítido e tocante, existe, está aí, malgrado ter quase passado em silêncio por entre o bulício das vulgaridades que alguns média, acriticamente, colocaram em pedestais de sebo: O encantador de sereias, de Augusto Baptista, livro raro, de um pícaro hodierno, mas com memória, cavalgando o território das mini-histórias de modo feliz e solar.
Claro que Augusto Baptista, obreiro hábil de livros afins, nomeadamente os que deu à estampa para públicos mais jovens (O lobo mau no hospital; A senhora prestável), e outros que baloiçam perto de O encantador de sereias, como O caçador de luas, e esse notável, O medo não podia ter tudo, livro escrito a duas mãos por Augusto Baptista e Francisco Duarte Mangas.
As estórias de O encantador de sereias, se nos remetem amiúde para os Contos do Gin, de Mário-Henrique Leiria, no que nelas habita de surreal – sendo o surrealismo de Augusto Baptista de outra fundura discursiva, enfocando com destreza o real quotidiano –, têm, quer na linguagem, quer nos temos e no seu original modo de abordagem, uma marca identitária, uma voz singular, que faz deste livro algo de novo, de estimulante, que rasga o cinzentismo de alguma prosa bárbara com uma lúcida gargalhada, com sereno, inteligente sentido de humor.
Vejamos alguns exemplos: "APAGÃO – A luz quando volta, tem ideia? – Antes, espero, que a democracia apodreça. Mas nunca se sabe." ; O FOCO – Era um presidente de junta focado no seu projecto; só ouvia música de câmara."; LENTES DE AMARGURA – De óculos escuros! – Ossos do ofício. Ossos do ofício. – Então conte-me... – Ando a fazer um estudo sobre o salazarismo. Os óculos são para avaliar como eram esses tempos. – Ah, assim não consegue. Para alcançar a coisa o meu amigo precisa de óculos escuros sim, mas com lentes de ver para dentro, lentes que dêem para ver a amargura da alma."
Esta amargura da alma está igualmente presente em duas notáveis narrativas curtas: Noite de Natal e Carta ao Pai Natal.
Eis um livro para os dias de hoje, ao "contrário das ondas": feliz, assertivo, denunciador
In Avante, 29/1/2026
Inquietação
A pergunta irrompeu inesperada, madrugada alta. Embrenhado na leitura, eu não dera pela entrada da voz inquiridora.
Aturdido, fechei o livro, ensaiei fuga à questão. Afinal era tarde, horas de dormir, a televisão há muito mandara os meninos para a cama.
O ânimo perguntador não esmoreceu. Tentei ganhar tempo, trataríamos do caso pela manhã, com calma, de ta lha da men te.
Desconsegui.
De novo a pergunta, a inquietar a noite:
– Papá, o que é pensar?
E dei por mim a titubear. A enrolar-me em explicações. A tactear resposta que fizesse sentido. Para mim, para a minha pequena filha, então com quatro, cinco anos.
Pensar é um mundo. É resolver (ou não) um problema. De alta ou de básica matemática: dois mais dois? É uma palavra, uma poética. Um passeio de mãos dadas à beira mar, entre bandos de estorninhos. É perguntar: “Gostas de mim?” E ter resposta. Às vezes não.
É uma espécie de coceira no cocuruto, silêncio que nos revira para dentro, nos intriga, nos põe cismáticos, como se não houvesse lá fora, nem amanhã. E ao mesmo tempo é uma coisa natural. Como dizer, sentir, ouvir, sorrir, brincar. Ou respirar.
É existir, é obstinação, deriva. É equacionar o sentido da vida, individual, de todos. Um reflectir em relação, nós e os outros, nós e o universo. Para conhecer, para transformar.
Pensar é pesadelo. Lágrima. Gargalhada. É uma ideia que nos ata, uma arma florida, cravo com que se assalta o céu. É revolução. Sonho. Só sonhando se alcança a quimera para todos: igualdade, fraternidade, o pão, a paz.
É uma viagem de incessantes tentativas, um cair e levantar, um cair e levantar. E insistir. Um ensaio de saídas em labirintos, que se abrem em outros labirintos, em novos e infinitos labirintos. Com dissimulados alçapões.
É erguer os olhos, sondar o espaço, partir. Embarcar na construção de um mundo justo. Acreditar. Mesmo quando o horizonte é denso e o futuro arrepia.
Pensar é a busca da certeza tangível a cada hora. Uma incerteza, um sei lá. Saudação, liberdade. É ter ideias, morrer por elas: “Não falo!” É ânsia de verdade, de saber, conhecimento, cultura. Combate à vilania, à insânia. Um culto à elevação, à beleza, à bondade. À razão. É um pulsar. Um tem de ser. É a busca da figura geométrica essencial para modelar a harmonia, repor o equilíbrio natural. É cabelo desgrenhado sobre a fronte, um desatino.
Pensar é concluir que só lá vamos com os outros. Sozinhos não tem piada, não enche o peito, não ilumina o coração. Nem a razão. É movimento, levitação, caos para gerar novos portos de chegada, descobrir outras partidas. Um tilintar. Uma viagem, um voo cósmico. Sinfonia de campainhas e chocalhos, rebanho de ideias em transumância.
Campo lavrado, mão, pensar é punho, torno, cinzel, arado, barco, desenho, jornal. É livro, pauta de música, orquestra, canção. E ruas, cidades, festa, balão.
Pensar é um valor de sempre. Como Abril. Como estes anos a insistir. Este labor, este lutar. É uma gaivota sobre os céus do Porto, sobre os céus do mundo, rés ao passado, em voo livre rumo ao futuro?
Ajudem-me nesta inquietação:
– O que é pensar?
Augusto Baptista
VIVER
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Sessenta pulsações por minuto quantas pulsações são à escala de uma vida? Um batalhão de algarismos! E ninguém repara nisto, ninguém nisto se detém. E dizem os entendidos que a energia deste pulsar, à mesma escala vital, daria para mandar um engenho da Terra à Lua. E voltar! Respirar leva ao mesmo alheamento, às mesmas contas gradas.
Viver obriga a muito cálculo, a muita ponderação. Quantas batidas moram num coração apaixonado? Quantas inspirações por minuto tem um peito em sobressalto? Quantos passos numa vida? Quantas palavras são ditas?Quantos minutos dormidos, quantos outros acordados? Quantos segredos guarda a vida? Quantos pensamentos calados? Quantos outros assumidos? Quantas oportunidades perdidas? Quantas outras a que preço vencidas?
Viver é um enlace de muitas mãos, de plurais coloridos. Mãos que se querem abertas. Ao mundo, à relação, a outra mãos. Pelas asas da Ciência, da Arte. Do Pensamento. Da Paz. Da cooperação.
Viver é uma ânsia de luz, um semear de pão para todos. É uma oração de menino – que viver às vezes assusta – em noite de trovoada: Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita, livrai-nos desta tormenta, afastai-a para bem longe, onde não haja eira nem beira, nem folha de oliveira, nem pedrinha de sal onde possa fazer mal.
Viver é agir. É lutar. Justiça! Trabalho! Educação! Casa! Saúde! É construir um mundo justo, sustentável, feliz! É uma música, um poema, uma paixão! É um jogo de equilíbrios. Um cultivar de ternura, um rotundo não à guerra, uma aposta na harmonia rumo a um futuro fraterno, que abrace os homens, os montes, os pássaros e o arvoredo, a cantata dos rios, a serenata dos grilos. É um grito. Pelo Clima. Pela Terra. Pelo Universo. Pela Vida.
Viver é jogar às escondidas, é brincar, inocente saltar à corda, adulto plantar de esperança numa vida melhor, a pensar em nós e nos outros, em plurais geografias. É uma aposta no amanhã. Sem a fome, sem o ódio, sem o horror, sem a vilania que hoje impera pela mão dos poderosos.
Viver é enfim uma despedida: bom que seja o não acordar de um sonho. É uma partida, um início de viagem: aberto a que novas sinfonias?
Viver é um exercício de muita matemática. De muita interrogação.
Augusto Baptista