In Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, pág 16, Augusto Baptista
quinta-feira, 19 de maio de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
WC
Houve um tempo na cidade em que o 52 parava na Praça junto a umas árvores, galhos negros a regurgitarem à noitinha de frutos chilreantes: o alarido da pardalada antes de adormecer. A céu aberto, nos ramos sobranceiros, o WC.
Na paragem do autocarro, pandemónio. Entre os alvejados, o alívio dos pterossáurios estarem consabidamente extintos.
In Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, pág 50, Augusto Baptista
terça-feira, 17 de maio de 2011
O homem que cortava a direito
Os amigos recordam-no, saudosos, como um homem recto, cidadão que, face a contrariedades, não perdoava: se os calos o magoavam, vik!; se lhe doíam os dentes, vuk! A última vez que foi visto queixara-se de uma leve dor de cabeça.
In o homem que, pág. 29, Augusto Baptista
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Brisas domésticas
Está-se a levantar um vento... Isto dito, já ela vogava no ar, sem que alguém lhe pudesse valer, algo houvesse para se agarrar. Longe, pensou: Se ao menos o vento amainasse. E logo caiu: sobre a cama, por sorte.
O homem, concentrado nas palavras cruzadas, limitou-se a reflectir: Não pode beber tanto ao jantar. E foi indo fechar a janela.
Augusto Baptista, Maio 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
A viagem
Perseguiam destino ondulante: ele enredado na rota do Vale Sombrio; ela obstinada no trilho do Cabeço Iluminado. Deram o nome de André à experiência peregrina.
Augusto Baptista, Maio 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
O homem que era um pai babado
Os miúdos aprendem a escrever cada vez mais cedo, facto positivo, mas que não deve ser tomado como valor absoluto, a ponto dos encarregados de educação baixarem o nível de exigência linguística, tolerarem grosseiros atropelos ortográficos. Ainda há pouco, o Aniceto, já quase com um ano de idade, assinava o nome com dois ss, ante o gáudio do paizinho!
In "o homem que", pág. 63, Augusto Baptista
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terça-feira, 1 de março de 2011
Ordenamento
Vencidas as imperativas etapas, consumaram-se. E tantas eram que formavam um denso manto de asas trémulas a agasalhar a dona, da cabeça aos pés.
Quando saíam, a cidade sobressaltava-se. À passagem da multidão, nas tardes quentes, sobretudo, entre alas de plátanos e canto de pássaros, o trânsito encrespava-se, cresciam buzinas, impropérios, e os peões estougavam o passo, nauseados.
Um dia, mobilizaram-se as forças da ordem. Com bulldozers, fumigadores, moto-serras, machados. E a urbe pôs fim à conspiração volátil.
No desafogo da praça expurgada, bem no centro de betão, há agora uma mulher de mármore nu, mãos ambas a cobrir o crâneo escalavrado. À volta, nem uma borboleta.
In O Caçador de Luas, pág. 74, Augusto Baptista
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