terça-feira, 1 de março de 2011

Ordenamento

Vencidas as imperativas etapas, consumaram-se. E tantas eram que formavam um denso manto de asas trémulas a agasalhar a dona, da cabeça aos pés.
Quando saíam, a cidade sobressaltava-se. À passagem da multidão, nas tardes quentes, sobretudo, entre alas de plátanos e canto de pássaros, o trânsito encrespava-se, cresciam buzinas, impropérios, e os peões estougavam o passo, nauseados.
Um dia, mobilizaram-se as forças da ordem. Com bulldozers, fumigadores, moto-serras, machados. E a urbe pôs fim à conspiração volátil.
No desafogo da praça expurgada, bem no centro de betão, há agora uma mulher de mármore nu, mãos ambas a cobrir o crâneo escalavrado. À volta, nem uma borboleta.

In O Caçador de Luas, pág. 74, Augusto Baptista

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O boca de ouro

A mulher esmera-se em gemadas e sumos de limão, ele numa azáfama de gargarejos de água e sal, toda a semana. Dois dias antes, grau absoluto de mudez, entra em estágio. Chegado ao campo, abre a boca - no início do jogo - fecha-a, logo no fim. Dentro do estojo, volta a guardar a áurea dentadura, desnecessário apetrecho para sorver agora gemadas e sumos de limão, toda a semana: novo ciclo de abstinência fónica para manter em forma o locutor de futebol.
In O caçador de luas, pág 37, Augusto Baptista

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quem come quem

Foi à mercearia procurar fermento, do bom. A atestar o acerto da compra, a massa inchou na forma, cresceu no forno, excedeu no fogão, galgou cozinha, moradia, aldeia, engoliu o adro pleno de gente aflita, a torre sineira, o vale, o cocuruto do monte. A salvo da destemperada gula, só um irrequieto bando de pardais, entretido a depenicar o bolo.
In O caçador de luas, pág. 54, Augusto Baptista

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Humor ao alto CXXXV

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Humor ao alto CXXXIV

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Humor ao alto CXXXIII

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Humor ao alto CXXXII