segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Humor ao alto C

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O adeus

Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor.
Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no empedrado.
Ganhando brusca consciência do caso, sem cuidar da mão, dona Josefa desfez-se em desculpas e perdões. Alheio, olhar na ausência, no coto, o doutor Proença aquietou:
— Deixe, minha senhora. Que havemos de fazer? É a vida.
De repente, desperta pelo magnânimo desprendimento, acirrada pela culpa (que não teve), dona Josefa apressa-se, calçada abaixo. Quando, ofegante, chega à margem, já a mão do doutor Proença, a vogar no rio, é um aceno.
In O caçador de luas, pág. 60, Augusto Baptista

Humor ao alto XCIX

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias

Entra e logo o dono do estabelecimento:
— Muito bom dia dona Mariazinha. Então que manda?
— O costume, senhor Silva.
Foi à estante, colheu uma braçada dos de lombada grossa, pesou.
— Três setecentos e cinquenta. E que mais?
— Olhe, já agora, levo um par de badanas. E uma dúzia de frontispícios, para o gato.
In Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias, pág. 35, Augusto Baptista, Campo da Letras
Humor ao alto XCVIII

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias

Em noites de tempestade, gosto de abrir a janela, sair. Quem me surpreender depois a vadiar num céu de relâmpagos talvez julgue ver um anjo migrante, tresmalhado do bando. Enquanto, a saltar entre lianas de luz, eu, simplesmente Tarzan.
In Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias, pág. 67, Augusto Baptista, Campo das Letras
Humor ao alto XCVII