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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Destinos paralelos

Ao primeiro olhar, encandearam-se. No desvario, ele corre para o banco do jardim, fica a aguardar; cativa do mesmo impulso, sentada no banco ao lado, ela, também à espera.
In O caçador de luas, pág. 125, Augusto Baptista

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pilifobia

Nasceu-lhe um no braço e logo desatinou: tinha asco a pêlo! Repugnavam-lhe barbas, bigodes, tranças, cabeleiras, penugens, toda a ocorrência piliforme, em suma. Com um hábil e demorado acompanhamento familiar foi possível relativizar o incidente, vencer o trauma. E ganhou estofo para depreciar os cabelos que lhe haveriam de nascer na palma da mão, as madeixas peludas a crescerem-lhe na planta dos pés, os fartos entrançados a soltarem-se do palato, a poupa ondulada a emergir-lhe da língua, os densos caracóis a saírem-lhe dos olhos... A cada achaque, sábia, a mãe aquietava: Há gente, filha, há gente a quem pêlo nasce até no coração...
In O caçador de luas, pág.117, Augusto Baptista

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Cara mirada

Todos os dias, estremunhado e grave, José cumpre o dispendioso ritual de se mirar ao espelho. E logo se parte a rir: de José, o espelho.
In O caçador de luas, pág. 49, Augusto Baptista

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O país de Alice

Num estranho acidente, as mãos da menina Alice ficaram presas na porta do autocarro 35. Avaliadas as hipóteses de desencarceramento, os técnicos concluíram: melhor seria não arriscar. Posta ao corrente, concordou, tanto mais que lhe garantiam o mesmo ordenado do escritório, descontos para a Segurança Social, subsídio de refeição, pernoitas. E, ademais, sempre que quisesse, a família podia vê-la. A partir daí, dia e noite, a menina Alice e o 35 passaram a viver juntos: um casal, a bem dizer. A ocorrência tornou-se notícia, com cobertura mundial de televisões, rádios, jornais. A sorte grande para a menina Alice, que parecia condenada a passar a vida a teclar ofícios, mãos presas à velha Remington.
In O caçador de luas, pág.16, Augusto Baptista

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O sem abrigo

O casamento, o bem-estar, o espaço, tudo sacrificou por amor aos livros. Vivia para eles - mancha crescente a acastelar-se nas paredes da casa, a atapetar o soalho e a engordar em montículos, logo conglomerado denso, cada vez mais grosso, avidamente a consumir o quarto, corredor, cozinha...
E veio um tempo em que só de pé podia dormir, após rastejos entre galerias de papel, lombadas, letras, vocábulos. E sempre novas edições, prémios Nobel, jogos florais, suplementos literários, colecções, irrecusáveis desafios à pulsão bibliófila. Breve, impedido de ler, entrava em casa de pé-de-cabra, assalto árduo, corpo na disputa milimétrica entre obras empilhadas, monolítico ocupante.
Ontem forçou a porta, delongadamente. Pelo minguada fresta alcançada, logrou introduzir uma derradeira obra: delgado impresso de folha única, papel bíblia. E, expulso de casa pelo amor aos livros - objectos cruéis, o livros -, partiu em demanda de uma outra paixão, num sítio qualquer.
In O caçador de luas, pág 66, Augusto Baptista

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Arte e manha

Quando a desoras passou no teatro, a corista saía em passo miúdo, saia travada. E fez-lhe um sinal. Seguiu-a, sem uma palavra, sulcou a cidade, até ao limite. No outro lado do rio, esperava-os a talha baça de um altar, penumbrado pelo bafo de círios e álcool, entre anjos, santos, crucifixos, caruncho. E um padre rançoso. Sim é tudo quanto se lembra ter dito, por isso vagamente lhe ser perguntado.
In O caçador de luas, pág. 134, Augusto Baptista

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Prenda de anos

Irá oferecer o quê ao filho, pelos anos? A resposta paira no que gostaria ele de ter recebido num dia assim, do seu próprio pai. Talvez um bibe ornado de coelhos com chupeta a condizer, ou um ursinho de peluche castanho-claro, coleira e guizo, embora o pêlo, chamariz de ácaros, aconselhe a opção arejada de uma carreta dos bombeiros, ou de um carro desportivo em ponto grande, boneca loira sentada à frente, ele ao volante, prego a fundo, no porta-bagagem uma caixa de charutos e muito Habana Club.
In O Caçador de luas, pág. 114, Augusto Baptista

terça-feira, 14 de setembro de 2010

No desmaranho do turundundum

O miralmuminim excogitou conjúgio à legatária, pucela núbil semiscarúnfia, aveza a seramangar. Antre solfa, kissanges, cuícas, dicanzas, sanfonhas, e caporroto, e grogue, e bué de pitança, no alcaçarel bruou funçanata. E per las quadrelas, alcaçarias, vilares, glebas, se adentraram pervicazes caduceadores conubiais, azoinando o assessegamento das poblas.
Um dardanário senecto, malroupido, façudo, malacafento, esculcou-se da poranduba, soforou o solípede, alou.
Empero, de longada uma mofina procela se alvorotou. Trépidos, no desmantelo, azemel e mua se amocambaram em lutulenta madrigoa. Moxinifados no valhacouto, subitâneo assonou um cerebrino quasímodo, façulas manga flagiciosas, qua-tal um aveediço olhizaino, aprestado de gládio e chuvim.
Metafisga de factótum, o onzenário fariscou alá gadunhas do exu:
— Uxte! Zurre!
O cramulhano alforfilhou com polvorinho uzifur e reboo. Concomitante, na cureta da lura surdiu ebúrneo Pégaso.
No terragido, o chatim malazengo alquinou presentaneamente. Nessora, o empíreo tetrópode esgalreou o escanifrado tergo do bucéfalo. E no angu, volitaram, zinzilularam, turbilhonaram, delongado prazimento célico. Presto, em inconcussas boninas, se despartiram.
Dementre, no alcançarel, a avondada pucela conjungiu-se com um pecunioso proco: símil ao solipso dardanário macróbio, delfino no desmaranho do turundundum.
In O caçador de luas, pág. 126, Augusto Baptista

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma história exemplar

Era uma vez um casal de piolhos que conseguiu instalar-se numa bonita cabeleira. Com o tempo a trupe cresceu, conquistou outras cabeças. E não tardou a assumir o poder.
Ninguém mais se coçou.
In O caçador de luas, pág. 75, Augusto Baptista

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A velha que escrevia cartas de amor

Chegou encolhido, mão a segurar a mão, olhos baixos. Velha Serafina abriu a porta, cautelosa:
— Que mandas?!
Levou a mão ao bolso, insinuou a carta.
— Entra.
Sem delongas, à luz intimista da candeia, a velha leu a missiva devagar, entoação melosa a meia-voz. E Mariano ouvia. Afogueado na cara, nos olhos, nos olhos presos às mãos entrelaçadas, ouvia. Ouvia, em sobressalto.
Finda a leitura, breve diagnóstico ao rosto do rapaz, Serafina compulsou modelo competente em As trinta mil e três mais apaixonadas cartas de amor, grosso almanaque. Dextra, breve achou resposta adequada. Caligrafia cuidadosa, palavra a palavra soletrada, transcreveu:

Minha Senhora,
Quando li a sua declaração, confesso que fiquei aturdido. Vivendo Vossa Senhoria na cidade, onde não lhe faltarão pretendentes, como explicar o seu interesse por um moço da aldeia? Diz serem sérias as suas intenções. Sem disso querer duvidar, sinceramente, temo haver atrevimento excessivo no que me propõe, ousadia só possível numa mente tresloucada pelos doces eflúvios do amor.
Apesar de adivinhar na sua missiva boas intenções, não me atrevo a conceder-lhe encontro no domingo. O ardor da paixão aconselha recato, neste meio tão pequeno, ademais envolvendo uma senhora citadina e, acrescidamente, viúva. Imprudente seria pois, como sugere, vir esperar-me à saída da missa para o seu rosto apaixonado aí romper o anonimato.
O mais que se pode fazer, para não atearmos as vozes do mundo, soltarmos veneno alcoviteiro, é eu esperá-la na sexta-feira à noite, na casa da eira, ao pé do moinho, depois, claro, de toda a gente se haver acostado. Poderá então Vossa Senhoria tirar a máscara e desvendar, sem sobressalto ou pressa, tudo o que tem para me dizer.
Com sumo respeito, fico a aguardá-la.
Este que se assina,
Mariano

A explodir no calor da lareira, Mariano tudo escutou, sem um reparo. Velha Serafina fechou o envelope, escreveu o endereço da desconhecida amante.
— Tira-te de cuidados, amanhã compro selo e mando.
— Nem sei como agradecer, senhora Serafina.
— Não faltará ocasião.
Dissolvido na noite, Mariano sai. Serafina, rigorosa, guarda a carta no fundo da gaveta. Pelo anel passa uma ponta de lã, dá discreto nó: uma lembrança. Mera precaução para não se esquecer de sexta à noite, do compromisso.
In O caçador de luas, pág. 132, Augusto Baptista

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Confronto

Peito à mercê, João. Inclemente, António prime o gatilho. O cão, avanço tenso, fere o fulminante. Como esperado, a acção percutora desperta na pólvora dormente uma reacção demencial. Envolta em névoa de gases compressos, a lamber a alma estriada do cano, a expandir-se em detonação na boca, na boca da arma, a bala!
Na brevidade de um ui, destino precordial, o projéctil ousa anatómico percurso: rompe a pele, a fáscia superficial, a fáscia profunda, rasga o grande peitoral, insinua-se no quinto espaço intercostal, rasga a musculatura breve, penetra a fáscia endotorácica, o saco pericárdico, dilacera o ventrículo direito numa desmesura negra...
Coração a fibrilar, desconexão caótica de impulsos e espasmos, olhos esbugalhados, indicador tenso, João prime o gatilho, inclemente. Peito à mercê, António. O cão, avanço tenso, fere o fulminante. Como esperado,
In O caçador de Luas, pág. 100, Augusto Baptista

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reflexo voraz

No balanço de água mansa que lhe banha os pés, vê a sua imagem adolescente ondear, quieto reflexo transparente à tona. Um fio líquido distende um pormenor, de supetão logo outro, e o resto se revolve no redemoinho, num instante. Na elástica tensão e distensão da superfície, o reflexo rola desconexo, tropeça nos cotovelos pedregosos junto à margem, rasga-se nas arestas aceradas dos roquedos, balbucia, imerge no tumulto da curva de águas derrapantes.
Insondáveis liames retrocedem ao lume de água, no lapso de um chicoteio, outros se insinuam no ânimo líquido, traiçoeiros buscam os pés adormecidos no remanso, e os alcançam, e os enlaçam no ímpeto da corrente.
In O caçador de luas, pág. 97, Augusto Baptista

domingo, 5 de setembro de 2010

A morte do artista

A mulher descalça estendeu na relva uma toalha líquida e sentou-se, à margem. Nas mãos claras, uma garrafa guardava já a mensagem pungente, desenlace escrito em papel mortalha. Um passarinho esmaecia a tarde num gorjeio roxo. Foi quando o trapezista amarrou a corda no céu e, sob um rufo baço de tambores, deu início à cerimónia.
In O caçador de luas, pág. 96, Augusto Baptista

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Uma vida sem pontuação

Vivia como escrevia sem vírgulas sem pontos sem parágrafos até que uma madrugada saiu da discoteca entrou no cruzamento

In O caçador de luas, Augusto Baptista

Veredicto canoro

Empoleirado no banco, erecção de pescoço, Luisinho ataca o trinado. Olhos cerrados, a mamã escuta. Finda a sessão, dona Noémia decide-se pelo reforço da ração de alpista.

In O caçador de luas, pág. 116, Augusto Baptista

terça-feira, 15 de junho de 2010

Historinhã

Uma manhã, já na sertã, gritou a rã: Sou a sultã de Oman! E a rã, fã de coxinha de rã: E eu sou o Tarzan!

In O Caçador de Luas, pág. 17, Augusto Baptista, edições gatopardo

terça-feira, 8 de junho de 2010

Código misterioso


Quando a mensagem, concisa, inopinada, lhe caiu na mesa, papel vagamente perfumado, o jovem cripto correu a decifrá-la. Lançou mão às chaves, aos processos, às grelhas mais secretas. A tudo a cifra resistiu, inviolável. Sem conseguir desvendar o mistério, envelheceu. E nunca perguntou, sequer à Ana, mesminho ao lado, que raio queria dizer aquele código, insondável sigla de cinco letras: amo-te.

In O Caçador de Luas, Augusto Baptista, gatopardo 2003


sábado, 5 de junho de 2010

A dúvida

Intolerante, avalia-me. O queixo. A boca. O nariz. Os olhos. O rímel das pestanas. A curva da sobrancelha fina. A testa. Este cabelo. Porventura caracóis? Talvez pintá-lo. Verde? Amarelo? Tons de púrpura? Azul? Olhos de prata, grandes, olha-me sem coração. Mudo. Cruel, o espelho! Na silenciosa sugestão, talvez, me deixe ficar nesta destemperança natural: cabelo todo branco, enfim.
In O Caçador de Luas, Augusto Baptista, gatopardo 2003

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A testemunha


Presencia tudo: vê Tãozinho sacar o maço do bolso paterno, vê o isqueiro, vê as lentas baforadas, a tosse. Ao descobrir-se espiado, o menino sobressalta-se:
– Não contas ao papá. Contas?! – gesto corruptor, propõe uma passa.
A testemunha recusa, brusca e muda: péssimo presságio! Esgazeado pelo fumo, Tãozinho pousa o cigarro na borda da mesa. E, mãos ambas, salta ao pescoço do papagaio.

In O Caçador de Luas, Augusto Baptista, gatopardo 2003

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O homem que morreu duas vezes


Murilo comprou uma tv gigante, ecrã panorâmico, 360 graus. A arrojada iniciativa obrigou a obras em casa, impôs sacrifícios: dramática redução da área habitável, renúncia de dispensa, varandas, WC… Em suma, perdeu em lar, ganhou em amplitude televisiva, abertura ao mundo.

Agora, tem Pequim à distância de um imperceptível movimento do indicador, Toronto na fracção de um clic, Paris ao alcance de um dedilhado breve do polegar, cosmos, fundos marinhos, filmes, tempestades, num relampejante esgar da falangeta.

Longe a exígua janela para espreitar a rua e pouco mais. O universo, em todos os sentidos, é-lhe hoje instantaneamente convocável. Murilo arribou, enfim, à ultra-sofistificação tecnológica que lhe dá realidade, a toda a volta. E alguns contratempos: nas manifestações, por exemplo, os insultos, os protestos, chovem-lhe de todos os lados; nos teatros de guerra, balas, emboscadas, fogo de artilharia, surpreendem-no de frente e à traição.

Pedem-se-lhe nervos de aço!

Cercado pela extrema factualidade televisiva, texturas parabólicas em pulsante nitidez, Murilo é percorrido pelo cheiro a pólvora, o medo, sangue a golfar dos moribundos, a encharcar a alcatifa, entre clamores, agonia, o silvo das balas rente à cabeça, ele encurralado atrás do sofá e, logo, uf!, a savana, os elefantes, o hálito azotado da urina do macho dominante, ele a progredir cauteloso contra o vento, inopinadas, viscosas, as excreções da manada e, nesta aflição madrugadora, o botão salvador, o suor enjoativo dos cowboys, pistoleiro dedo no gatilho – dispara, não dispara – ele, mãos no ar, aliviado, a salvo do horror paquidérmico.

Mas, o que custa, o que mais lhe custa, é entrar em directo nos telejornais, ser jogado para um qualquer contexto, logo envolvido. Particularmente acidentado, o último fim-de-semana: emboscado em Bagdad, vê-se embrulhado numa sublevação prisional em São Paulo, escapa a um ataque israelita na Palestina, livra-se in extremis de casar com uma velha mestre-escola em Las Vegas, perde uma fortuna num casino da Birmânia, colhido na Monumental de Madrid esvai-se nos braços da Sharon Stone, ambulância a caminho do hospital, tiloli!! , tiloli!, irrompe uma voz aflita:

– A casa de banho?! Rápido, Murilo! A nossa casa de b… – E, supreendendo o pungente desenlace na ambulância, demenciada: – Oh! Que fazes aí no sofá com essa mulher?! Diz-me!

Em contra-luz, Murilo entreviu uma figura familiar à porta do telesalão, vagamente Carlota, a consorte, bolseira em Paris, inexplicavelmente ali, ele nos braços da Sharon a caminho do hospital, sem tempo para explicar, Carlota a desfocar-se agitada, mãos de repente sacudidas por um estampido rubro.


In O caçador de luas, págs. 106, 107, Augusto Baptista, edições gatopardo