terça-feira, 30 de novembro de 2010
Destinos paralelos
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Pilifobia
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Cara mirada
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
O país de Alice
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
O sem abrigo
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Arte e manha
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Prenda de anos
terça-feira, 14 de setembro de 2010
No desmaranho do turundundum
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Uma história exemplar
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
A velha que escrevia cartas de amor
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Confronto
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Reflexo voraz
domingo, 5 de setembro de 2010
A morte do artista
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Uma vida sem pontuação
In O caçador de luas, Augusto Baptista
Veredicto canoro
In O caçador de luas, pág. 116, Augusto Baptista
terça-feira, 15 de junho de 2010
Historinhã
In O Caçador de Luas, pág. 17, Augusto Baptista, edições gatopardo
terça-feira, 8 de junho de 2010
Código misterioso
Quando a mensagem, concisa, inopinada, lhe caiu na mesa, papel vagamente perfumado, o jovem cripto correu a decifrá-la. Lançou mão às chaves, aos processos, às grelhas mais secretas. A tudo a cifra resistiu, inviolável. Sem conseguir desvendar o mistério, envelheceu. E nunca perguntou, sequer à Ana, mesminho ao lado, que raio queria dizer aquele código, insondável sigla de cinco letras: amo-te.
In O Caçador de Luas, Augusto Baptista, gatopardo 2003
sábado, 5 de junho de 2010
A dúvida
In O Caçador de Luas, Augusto Baptista, gatopardo 2003
quinta-feira, 3 de junho de 2010
A testemunha
Presencia tudo: vê Tãozinho sacar o maço do bolso paterno, vê o isqueiro, vê as lentas baforadas, a tosse. Ao descobrir-se espiado, o menino sobressalta-se:
– Não contas ao papá. Contas?! – gesto corruptor, propõe uma passa.
A testemunha recusa, brusca e muda: péssimo presságio! Esgazeado pelo fumo, Tãozinho pousa o cigarro na borda da mesa. E, mãos ambas, salta ao pescoço do papagaio.
In O Caçador de Luas, Augusto Baptista, gatopardo 2003
quarta-feira, 2 de junho de 2010
O homem que morreu duas vezes
Murilo comprou uma tv gigante, ecrã panorâmico, 360 graus. A arrojada iniciativa obrigou a obras em casa, impôs sacrifícios: dramática redução da área habitável, renúncia de dispensa, varandas, WC… Em suma, perdeu em lar, ganhou em amplitude televisiva, abertura ao mundo.
Agora, tem Pequim à distância de um imperceptível movimento do indicador, Toronto na fracção de um clic, Paris ao alcance de um dedilhado breve do polegar, cosmos, fundos marinhos, filmes, tempestades, num relampejante esgar da falangeta.
Longe a exígua janela para espreitar a rua e pouco mais. O universo, em todos os sentidos, é-lhe hoje instantaneamente convocável. Murilo arribou, enfim, à ultra-sofistificação tecnológica que lhe dá realidade, a toda a volta. E alguns contratempos: nas manifestações, por exemplo, os insultos, os protestos, chovem-lhe de todos os lados; nos teatros de guerra, balas, emboscadas, fogo de artilharia, surpreendem-no de frente e à traição.
Pedem-se-lhe nervos de aço!
Cercado pela extrema factualidade televisiva, texturas parabólicas em pulsante nitidez, Murilo é percorrido pelo cheiro a pólvora, o medo, sangue a golfar dos moribundos, a encharcar a alcatifa, entre clamores, agonia, o silvo das balas rente à cabeça, ele encurralado atrás do sofá e, logo, uf!, a savana, os elefantes, o hálito azotado da urina do macho dominante, ele a progredir cauteloso contra o vento, inopinadas, viscosas, as excreções da manada e, nesta aflição madrugadora, o botão salvador, o suor enjoativo dos cowboys, pistoleiro dedo no gatilho – dispara, não dispara – ele, mãos no ar, aliviado, a salvo do horror paquidérmico.
Mas, o que custa, o que mais lhe custa, é entrar em directo nos telejornais, ser jogado para um qualquer contexto, logo envolvido. Particularmente acidentado, o último fim-de-semana: emboscado em Bagdad, vê-se embrulhado numa sublevação prisional em São Paulo, escapa a um ataque israelita na Palestina, livra-se in extremis de casar com uma velha mestre-escola em Las Vegas, perde uma fortuna num casino da Birmânia, colhido na Monumental de Madrid esvai-se nos braços da Sharon Stone, ambulância a caminho do hospital, tiloli!! , tiloli!, irrompe uma voz aflita:
– A casa de banho?! Rápido, Murilo! A nossa casa de b… – E, supreendendo o pungente desenlace na ambulância, demenciada: – Oh! Que fazes aí no sofá com essa mulher?! Diz-me!
Em contra-luz, Murilo entreviu uma figura familiar à porta do telesalão, vagamente Carlota, a consorte, bolseira em Paris, inexplicavelmente ali, ele nos braços da Sharon a caminho do hospital, sem tempo para explicar, Carlota a desfocar-se agitada, mãos de repente sacudidas por um estampido rubro.
In O caçador de luas, págs. 106, 107, Augusto Baptista, edições gatopardo